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Diario de um ApocalipseAutor: Ed Angelis

A vizinha agradável

Mudei para um condomínio fechado bem longe da praia, bem longe de tudo, quase fora da cidade. Era um condomínio recém-construído, bem simpático e com um preço bem razoável.

Ele era formado por inúmeras pequenas casas, de 2 quartos pequenos, 1 banheiro, 1 cozinha minúscula e sala. Em volta das casas havia um gramado, que tomava a mesma área que a pequena casa. Me lembrava bastante casas que via em filmes nos Estados Unidos, só que em miniatura.

Para apenas 1 pessoa ou um casal era a moradia perfeita, mas normalmente famílias inteiras moravam nelas. Havia sempre muitas crianças andando de um lado para o outro, brincando na rua e nas calçadas.

Uma dessas crianças era minha vizinha, uma menina na faixa dos seus 6 ou 7 anos, bem simpática e sorridente. Sempre falava comigo quando me via, gritando, me saudava.

– Oi, vizinho! Dizia ela.

Ela morava com a avó e o tio, que montaram um mini mercadinho na casa deles. Ela era muito sociável e estava sempre brincando com as outras crianças ou saudando os outros, de manhã, de tarde e de noite. Sempre escutava sua voz de dentro de casa. Acho que escutava até demais.

Me perguntei se ela não frequentava escola, então fui investigar. Um dia quando ela estava passando, perguntei se ela sabia ler: não sabia sequer uma letra do alfabeto. Fui questionar a avó dela a respeito. Ela disse que não conseguiram matricular ela na escola, mas que no próximo ano ela iria voltar para a escola.

Elaborei no computador cartões com as letras do alfabeto, onde de um lado tinha a letra e do outro várias palavras que começavam com aquela letra e suas imagens. Fui a uma lan house, imprimi os cartões, e plastifiquei.

Fui na casa dela e apresentei os cartões a ela, e comecei a ir todos os dias para praticar com ela. Ela adorava aprender as letras e era muito inteligente e aprendia rapidamente.

Depois de um tempo, foi ela quem passou a ir me chamar em casa para ter as lições. Uma vez perguntei o que ela queria ser quando crescesse, ela me respondeu que gostaria de ser policial.

De repente passei a vê-la cada vez menos. Ia na casa dela e ela sempre estava no condomínio vizinho, na casa do tio-avô.

Só vi a mãe uma vez, uma menina bem jovem e aparentemente meio problemática que não morava com a filha.

Uma vez estava conversando com a avó, que estava sempre fumando seus cigarros no gramado de sua casa, e ela me disse que o sonho da neta era ser enfermeira, para que ela pudesse tomar conta da avó mais tarde. Foi então que a ficha caiu.

Para a avó, o único propósito de existência da neta era ser sua cuidadora na velhice. Para isso, ela precisava manter a neta ao seu lado e dependente dela, e por isso o descaso com os estudos da neta. Me cheirou a mais uma amostra da natureza narcisista em sua versão mais simplória.

Na cabeça da avó, deve ser uma troca justa, já que é ela quem a alimenta; a neta nem existiria se não fosse por ela. Na minha, ela peca contra Deus e contra a sociedade: ela deixou a sociedade mais pobre, tirando o direito da neta de se desenvolver, podendo ser a policial que ela queria ser.

Em uma mentalidade narcisista, os filhos têm que estar abaixo deles, não podem ser mais estudados, mais inteligentes, ter profissões melhores, pois eles querem manter essa condição de subserviência para sempre. É incrível como esse pensamento se replica em várias esferas da sociedade, de um pai para um filho, de um patrão para um empregado, de um país imperialista para um em desenvolvimento.

Mas parentes narcisistas têm sempre uma visão meio limitada e burra das coisas. A criança naturalmente já será eternamente grata aos bons cuidados dos pais e avós, e não percebem que, ao crescer, ela saberá distinguir se realmente eles foram bons ou não.

Uma criança que cresce sob os cuidados de um narcisista terá muitas pendências emocionais e uma vida muito difícil para conseguir dar conta de cuidar deles quando chegar a hora. Então o maior medo do narcisista quase sempre se torna real: uma velhice solitária e abandonada.

Falei com uma amiga assistente social, e ela me disse que não havia muito o que podia ser feito. Depois de algum tempo, esses vizinhos saíram de lá e nunca mais vi minha vizinha novamente. Torço para a avó ter colocado ela na escola como ela falou.

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