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Diario de um ApocalipseAutor: Ed Angelis

Aracaju

Depois de ir dormir com as incertezas sobre o futuro pairando sobre minha cabeça, acordo no outro dia e recebo uma ligação logo cedo do dono da operadora, dizendo que um colega estava precisando de um mergulhador com urgência.

Era algo temporário, mas a remuneração era bem boa. Eles estavam realizando o monitoramento da vida que surgia nas estruturas das plataformas de petróleo; o acidente de um dos mergulhadores que estava realizando o serviço o deixou impossibilitado de mergulhar, o que causou essa oportunidade inesperada. Iria ficar embarcado 40 dias em um navio de porte pequeno, realizando diversos mergulhos por dia nas plataformas de petróleo, que ficavam bem próximas da costa de Aracaju.

Ao chegar na cidade, fui até o cais onde a embarcação estava atracada. Ficava ao lado de uma famosa feira popular, bem grande e conhecida. A embarcação estava em um local meio sujo e não bem cuidado, com muitos dependentes químicos no entorno.

Antes da embarcação zarpar e eu ficar trancafiado nela por 40 dias, dei uma volta na feira para conhecê-la, e lá vi uma coisa que nunca tinha visto: uma barraca com gaiolas abarrotadas de pombos, eram centenas. Fiquei me perguntando se a população aqui comia pombos, mas logo liguei a necessidade dos pombos aos sacrifícios religiosos. Fiquei admirado como a cultura dos lugares muda tanto de um lugar para o outro, mesmo não tendo que ir muito longe; só ouvia falar de tais sacrifícios na Bíblia, e achei que hoje em dia não existia mais esse tipo de coisas, não tão perto de mim.

Já em alto mar, a rotina na embarcação era bem monótona; os pontos altos eram os mergulhos: quando não estava mergulhando, ou estava comendo, ou estava na minha cabine me curando dos enjoos. Em noites sem nuvens, adorava subir ao ponto mais alto da embarcação e ficar curtindo as estrelas; nunca tinha visto céu tão estrelado quanto aquele. Naquele momento, eu estava conectado aos antigos navegantes; de lá para cá, era a única coisa que não havia mudado.

Depois de dias e semanas na embarcação, ela estava atracada na perna de uma plataforma quando tivemos que interromper nosso serviço, pois a plataforma necessitava receber outra embarcação com trabalhadores. Desatracamos da plataforma, mas ficamos bem perto, aguardando para que pudéssemos atracar novamente.

Enquanto aguardávamos, observávamos os trabalhadores ingressando e saindo da plataforma; entre eles, estava uma mulher. Fazia semanas que não via alguém do sexo oposto em carne e osso, e aquele foi um evento e tanto — é incrível como coisas pequenas podem se tornar tão marcantes quando estamos isolados do mundo, como eram hipnotizantes aquele caminhar, aquela silhueta.

Com certeza, a melhor coisa desses dias de trabalho embarcado foram os mergulhos. A princípio, achei que iria ficar bem tenso por estar mergulhando no emaranhado de metal das pernas das plataformas, e o serviço teve seus momentos de tensão, quando tivemos que trabalhar algumas vezes com visibilidade zero, tateando a estrutura para realizar o serviço. Mas, na grande maioria das vezes, a vida exuberante lá embaixo era de tirar o fôlego.

Algumas vezes, as pernas da plataforma estavam tomadas por corais coloridos que as faziam parecer muito mais um imenso jardim subaquático; nas maiores plataformas, a estrutura embaixo d'água parecia um grande prédio submerso. Parecia a visão de um mundo pós-apocalíptico, vidas estranhas que pareciam extraterrestres, ou pré-históricas — como um peixe mero gigantesco que encontramos.

Estávamos em uma das plataformas com maior profundidade quando avistamos esse mero. De longe, ele não parecia grande coisa — conhecido por ser bem dócil, o suficiente para permitir nossa aproximação. Fomos chegando cada vez mais perto, e ele foi se mostrando enorme, talvez do tamanho de um carro grande.

Ao nos aproximarmos, noto que ele está com um anzol preso em sua boca. O mergulhador mais experiente e líder do grupo se aproxima um pouco mais, ao ponto de alcançar o anzol, mas, ao tocá-lo para tentar retirá-lo, o mero calmamente se afasta, sem muito alarde. Essa docilidade toda foi o que quase provocou sua extinção, pois ele se tornava presa fácil para os caçadores subaquáticos.

Uma vez, descendo rente a uma das pernas da plataforma, noto alguma coisa encostando no meu braço. A princípio, achei que fosse o outro mergulhador, mas, quando me viro, dou de cara com mais um mero — esse bem menor que o primeiro, mas devia ter pelo menos meu tamanho. Ficamos nos encarando por alguns segundos, e depois ele calmamente vai embora; até hoje não sei se ele já estava ali e eu esbarrei nele sem querer, ou se foi ele quem veio esbarrar em mim querendo minha atenção.

O serviço que fazíamos era basicamente amarrar uma trena em toda a extensão da perna da plataforma, da superfície até o fundo, e, depois, usando essa trena como guia, descer filmando toda a perna da plataforma, para registrar a vida que se agarrava a ela. Também fazíamos uma filmagem panorâmica, registrando pontos de maior relevância e que chamavam mais nossa atenção.

No final do serviço, recebi em torno de 15 mil reais; consegui cobrir os cheques restantes que faltavam do pagamento do curso de instrutor, e consegui sair do vermelho.

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