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Diario de um ApocalipseAutor: Ed Angelis

A mochileira europeia

Aproveitando que iria acontecer um torneio em um estado vizinho, alugo um carro e vou pegar estrada sozinho, que para mim sempre foi algo relaxante. Me hospedo em uma pousada, e um dia, nas dependências comuns da pousada, noto uma moça sentada lendo algo. Era uma moça alta, branca, cabelos ruivos, bem curtos estilo masculino, com fisionomias bem europeias.

Me sento em uma mesa a uns 5 metros dela, finjo fazer algo no computador enquanto a reparava, fico me perguntando se deveria ir falar com ela, mas ela provavelmente nem português falava. Perco minha chance quando ela se levanta e vai embora.

Volto a encontrá-la um dia depois, quando desço para fazer o check-out da pousada. Quando chego, ela conversava com a atendente, em um português muito bom, mas claramente ela não era brasileira.

Aguardo na fila para fazer meu check-out e escuto ela pedir ajuda à atendente sobre a melhor forma de se chegar em outra cidade, João Pessoa. Recebo isso como uma segunda oportunidade que o universo estava me dando e me intrometo na conversa.

Me apresento, digo que moro em uma cidade próxima e vou passar por lá no caminho, e que poderia lhe dar uma carona.

Ela aceita a carona; diz que vai pegar suas coisas no quarto. Enquanto isso, faço meu check-out e aguardo sua chegada na entrada da pousada. Ela volta, ponho sua mochila no carro e seguimos para pegar estrada — seria uma viagem de 2 horas.

Na viagem, descubro que ela é francesa e que está há 3 meses no Brasil. Fico impressionado com seu bom português, apesar do pouco tempo.

Ela me fala os lugares por onde já passou e por todos que ainda pretendia passar; também me impressiona o fato dela conhecer muito mais o Brasil em 3 meses estando aqui do que eu nos meus quase 30 anos de Brasil.

Mas o que realmente me deixou impressionado foi saber a idade dela: ela tinha quase 10 anos a mais que eu, mas parecia ter 10 anos a menos. Digo que não acredito e peço para ela me mostrar algum documento; ela me mostra, e realmente não estava mentindo.

Fico me perguntando que curva errada foi que tomei, o que eu estava fazendo da minha vida, como voltar para o rumo certo.

Eu precisava de um respiro, e a primeira decisão que tomei foi que tinha que sair de casa: enquanto lá era acontecimento atrás de acontecimento, não conseguiria sair daquele estado estando ali. Talvez passasse um tempo viajando como essa moça; depois de recuperar minha saúde, me preocuparia no que fazer para me sustentar; mas, sem saúde, não poderia continuar.

Deixei minha carona em seu destino e segui para o meu. Grato eternamente ao destino e à viajante por aceitar minha carona e me proporcionar aquele encontro.

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