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Diario de um ApocalipseAutor: Ed Angelis

As gatas e o tomateiro

Passado o furacão das eleições, minha vida tinha voltado à sua forma mais pacata: ir à faculdade todos os dias e cuidar da minha casa e gatas era basicamente minha rotina.

Eu havia adotado 3 gatas: Russa, Boneca e Cinthia.

Russa e Boneca haviam aparecido ainda muito pequenas próximo de onde eu trabalhava na praia, miando e vindo direto para os meus pés, cobertas de carrapatos. Eu as levei para casa para remover os carrapatos e fiquei com elas.

Cinthia, uma gata do tipo Siamês, apareceu no portão do meu condomínio. Eu peguei um pouco de ração, peguei ela nos braços, levei ela uns dois blocos para longe, coloquei a ração para ela e vim embora para casa. Passados alguns minutos, ela entra na minha sala miando; e por imposição dela mesma, acabei ficando com ela.

Certo dia notei que Russa nem comia nem bebia água há um tempo.

Uma vez, perdi um gato que adoeceu e também ficou sem beber e comer; fiquei com muita dó dela e passei a noite fazendo carinho em sua barriga até eu adormecer. No outro dia, ela comia e bebia água normalmente.

Senti que estava quite com os felinos, pois um dia estava com uma dor de coluna insuportável que não me deixava dormir, até que uma delas subiu na cama e se aninhou nas minhas costas. A dor foi embora quase que instantaneamente, e eu consegui dormir logo em seguida; agora tinha retribuído o favor.

Um dia, brotou na cabeça a vontade de plantar alguma coisa em casa, e resolvi plantar algo que eu pudesse consumir. Então, fiz uma pequena plantação de tomates: em um mesmo balde, semeei várias sementes, e brotaram cerca de 10 tomateiros.

Quando eles tinham ainda uns 20 centímetros, ao chegar em casa, noto que um dos tomateiros estava quebrado; provavelmente serviço de boneca que adorava se esfregar neles.

Ele estava quebrado no meio, mas ainda se segurando com as fibras do tronco, com a ponta voltada para baixo, encostando na terra.

A princípio, pensei em apenas arrancar o pequeno tomateiro, afinal ainda tinha mais 9, mas depois mudei de ideia e tentei salvar o tomateiro. Arrumei algum tipo de graveto e amarrei junto ao tomateiro quebrado, deixando ele de pé, esperando que ele se curasse.

Ele não apenas se curou, mas foi o tomateiro que deu mais frutos, pelo menos 2 vezes mais que os outros.

Refleti sobre isso e me perguntei se Deus estava querendo me dizer algo com aquilo; se ele estivesse, ele estava dizendo que os brotos recuperados seriam os que dariam mais frutos.

Pensei em quem seriam os brotos quebrados dessa vida.

Me veio à mente aquelas crianças abandonadas, ou com pais miseráveis que exploram elas nos sinais de trânsito, quando elas deveriam estar brincando e estudando; quantos frutos bons elas não poderiam produzir se tivessem alguém cuidando delas.

Pensei nos dependentes químicos, que quase todos já julgam como irremediáveis: quantos frutos eles não poderiam produzir caso se recuperassem.

Pensei em mim mesmo, que já tinha estado tão quebrado e consegui me recuperar: será que teria eu muitos frutos bons a produzir ainda?

E, pensando naquele momento pós-eleição, pensei se os brotos quebrados não seriam aquelas pessoas que tão facilmente se deixam levar por ideologias que provocam o mal ao outro, por puro egoismo e mesquinhez; e se elas pudessem enxergar o rumo errado que tomaram, quantos frutos bons não seriam capazes de produzir.

Pensei sobre aquelas pessoas que julgamos perdidas, irrecuperáveis, mas para Deus não existem pessoas irrecuperáveis.

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