Diario de um ApocalipseAutor: Ed Angelis
O Abandono
Retorno da minha cidade após o funeral de minha avó, e ao chegar no albergue onde morava, havia uma nova residente, uma menina que dizia estudar na mesma faculdade. Não tive nenhuma interação com ela, para saber um pouco mais dela. Mas sempre a via assistindo TV na sala.
Um dia chegando no albergue, noto que a câmera que antes ficava na entrada apontando para a porta da frente agora estava apontando diretamente para a saída do meu quarto. Fiquei furioso com a situação e viro a câmera para outra direção, então o responsável veio falar comigo e discutimos.
A discussão ficou bem feia. Já muito estressado com as coisas que estavam acontecendo, por um momento achei que eu iria partir para agressão física. Eu queria isso, meu corpo pedia isso, mas eu me controlei.
Sua mulher participou dizendo a mim que quem não devia não temia. Então percebi que eles estavam desconfiando que eu tivesse feito algo de errado. Perguntei o motivo daquela situação, mas nada me disseram. Fiquei me perguntando se tinha alguma coisa a ver com a nova moradora. Será que ela havia prestado queixa a meu respeito? Ele me intimou a deixar o estabelecimento, e obviamente já não havia mais clima para que eu continuasse lá.
Eu havia trazido as 3 gatas. Um dos motivos de ter mudado para lá é que lá eles aceitaram eu levar as gatas. Mas sabia que ir para outro lugar com as 3 gatas ia ser complicado, principalmente porque só tinha dinheiro para ficar em quartos, como em albergues.
Estava encurralado sem saber o que fazer com elas, então tive que tomar uma difícil decisão. Teria que abandonar minhas gatas.
Com o coração pesado, fui pegando uma a uma e colocando dentro de uma mala grande. A cada uma que colocava dentro da mala eu ia me enchendo de luto e um peso grande no coração, o espírito mal conseguia respirar.
Levei elas até uma praça que ficava próximo de onde eu morava, era uma praça bem movimentada com comércios e lanchonetes. Achei que isso iria aumentar as chances delas serem adotadas por outras pessoas. Os passos eram pesados como se pesasse uma tonelada.
Cheguei na praça e, ao abrir a mala, eu chorava de soluçar. Duas delas imediatamente correram para longe, e Russa permaneceu na mala olhando para mim. Ela olhava um pouco em volta parecendo não saber o que estava acontecendo e retornava o olhar para mim. Ela fez isso por algumas vezes.
Eu permaneci lá chorando e paralisado sem ter a coragem de colocá-la para fora da mala, até que ela resolveu sair por conta própria. Fiquei lá sentado por algum tempo sem forças para ir embora, mas agora já estava feito. Eu fechei a mala e vim embora.
Me arrastando, eu cheguei no meu quarto. Ao deitar na cama, as lágrimas voltaram. Me amaldiçoava por ter me colocado naquela situação onde tive que abandoná-las, então me enchi de remorso. Eu sabia que aquela cena iria ficar para sempre em mim, seria uma eterna fonte de tristeza. Eu não poderia cortar esse elo simplesmente abandonando elas numa praça pública.
Cheio de remorso, retornei o mais rápido possível para a praça para reaver minhas gatas. Ao chegar no local onde as havia deixado, logo Russa vem ao meu encontro. A coloco dentro da mala novamente e vou em busca das outras duas.
Não demora e encontro Boneca, irmã de Russa. Ela deixa eu pegá-la sem nenhuma oposição. Com as duas já resgatadas, vou em busca de Cinthia.
Escuto um miado ao longe, mas olho em volta e não a vejo. Percebo que ela está em cima de uma árvore próxima de onde eu havia a deixado. Eu a chamo, mas ela não se movimenta para descer. Fico lá por vários minutos aguardando ela resolver descer, chamo ela mais algumas vezes, e aos poucos ela vai descendo da árvore, com bastante desconfiança. Desce um pouco e fica me observando, desce mais um pouco e para novamente, até que ela desce até onde eu consiga pegá-la.
Com as 3 reunidas agora, eu retorno com o coração bem mais leve e aliviado.
Agora só havia me restado 1 opção, retornar para minha cidade para a casa dos meus pais, e de lá descobrir o que eu iria fazer.
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