Diario de um ApocalipseAutor: Ed Angelis
Brasília
Voltei todo o caminho planejando como faria uma viagem sabática, mas com a conta bancária quase zerada, precisava juntar um dinheiro primeiro antes de pensar em algo do tipo.
Minha recém-ex-namorada, que jogava poker, é convidada pela federação de poker da Paraíba para ir jogar o Campeonato Brasileiro de Poker por Equipes em Brasília. A equipe era formada por 5 jogadores mais o técnico, onde pelo menos 1 dos jogadores teria que ser uma jogadora.
Fico com o ego abalado por não ter sido escalado, e um pouco traído, já que quem fez a escalação foi o presidente e vice-presidente da federação, que eram meus sócios.
Mesmo não sendo escalado, decido ir para o torneio em Brasília para dar o apoio moral para minha agora ex-namorada. Sem o direito de viajar com a equipe, tenho que arcar com os custos da viagem.
O apoio moral não deu muito certo: ela não vai muito bem no torneio, ela vai embora com a equipe e eu fico por lá, me perguntando se realmente tinha sido uma boa ideia ter vindo, gastando meus últimos centavos.
Tinha umas primas que moravam em Brasília, e ia aproveitar para visitá-las e me hospedar uns dias com elas.
Após o torneio por equipes, iria acontecer o Evento Regular de poker, torneio organizado pela Federação Brasileira de Poker, que organiza várias etapas durante o ano em vários lugares diferentes pelo país — é o torneio com maior premiação do país e atrai pessoas de todas as regiões do Brasil.
Já que estava na cidade, volto para o local do evento para tentar a sorte: me inscrevo em um torneio que premiava com várias entradas para o evento principal — por ter a inscrição muito cara, era comum haver esse tipo de torneios preliminares.
Eu ganho a vaga para vir disputar o torneio principal no próximo dia.
Volto no outro dia para disputar o maior torneio de poker do país, que daria mais de 300 mil reais para o primeiro colocado, com centenas de inscritos vindos de todo o país.
Chego muito confiante e esperançoso, mas a confiança e esperança não passam da primeira hora de torneio: sou eliminado logo no início, em um torneio que tinha previsão de durar pelo menos mais 3 dias.
Ao sair da área de torneio e já me encaminhando para voltar para casa das minhas primas, escuto o anúncio de que um outro torneio iria começar em instantes — esse com valor de inscrição bem menor que a do torneio principal, mas ainda assim muito alta.
Dou uma conferida no meu saldo bancário, e o valor da inscrição me deixaria apenas com dinheiro suficiente para a viagem de volta; talvez ainda tivesse que pedir algum dinheiro emprestado às minhas primas.
Em um impulso de irresponsabilidade, eu faço a inscrição no torneio, e volto para as mesas.
Mesmo com a corda no pescoço, estou jogando bem tranquilo e solto, fazendo boas leituras e muitas jogadas que fazem eu ganhar o respeito por todas as mesas que vou passando.
A quantidade de mesas no torneio vai diminuindo, e minhas fichas vão aumentando.
Estava jogando com muitos jogadores bem conhecidos e que só conhecia da internet; estava dominando todas as mesas que me colocavam, e aquilo foi me enchendo de confiança.
Chego entre os últimos 10 jogadores como líder em fichas e continuo assim até estarmos entre os 3 últimos.
Um dos 3 últimos jogadores finalistas me chama para renegociarmos a distribuição da premiação entre os 3 primeiros. Conversamos por alguns minutos sem chegarmos a um acordo.
É quando percebo que tudo não passava de uma malandragem: o tempo do torneio não havia sido pausado, e, com isso, o valor das apostas havia aumentado 3 vezes enquanto negociávamos.
E eu tinha perdido toda a vantagem por ter um volume maior de fichas, deixando o resultado do jogo a cargo de pura sorte.
E a sorte não sorriu para mim: termino o torneio em terceiro lugar, ganhando 20 mil reais.
Sinto um pouco de frustração no início por ter sido prejudicado no final, mas, no final das contas, foi um ótimo resultado.
Aquele resultado reascendeu um pouco a chama de voltar a me tornar um grande jogador de poker.
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