Diario de um ApocalipseАвтор: Ed Angelis
África do Sul
Tentei seguir com a vida, mesmo com a cabeça ainda muito turbulenta. Estava enviando currículos, e queria tentar alguma oportunidade de trabalho para alguma empresa do exterior. Há tempos vinha estudando inglês com aulas particulares presenciais e online. Me senti um pouco estagnado, sem evoluir há muito tempo. Então pensei na possibilidade de um intercâmbio no exterior. Acho que também era um pretexto para ir para longe e também realizar outro sonho.
Fazendo aulas online, descobri que a África do Sul podia ser um bom destino: era um dos mais acessíveis. Então fiz minha cabeça, e iria passar alguns meses na África do Sul.
Eu sabia que passar 3 meses na África do Sul estudando inglês iria custar todas as minhas economias. Mas, ao tomar essa decisão, instantaneamente me senti mais suave. Parecia ser a coisa certa a se fazer.
Chegar no meu destino na África do Sul foi uma jornada: tive que pegar 3 voos e 2 viagens de ônibus. Não comprei pacote em uma agência de viagens ou de intercâmbio. Fui eu mesmo que comprei e reservei cada viagem e cada hospedagem onde eu iria ficar.
Chegando em Cape Town, me hospedei primeiro em um hostel que já havia reservado do Brasil. Achei o local meio vazio e escondido, o que não me deixou muito seguro.
Passei então para outro hostel, esse sim com um volume grande de pessoas. Encontrei lá vários brasileiros.
Um casal de jovens forçou uma aproximação. Pensei que não seria bom o contato com brasileiros já que estava lá para estudar inglês, e meu instinto me falou para me afastar.
O hostel era para ser apenas algo provisório, e consegui alugar um apartamento com um preço razoável. O apartamento era o attic de uma casa: esse attic tinha 6 enormes janelas no teto, o que o fazia parecer o interior de um veleiro.
Das janelas se dava para ver as montanhas ao redor, inclusive a Table Mountain, principal atração turística de Cape Town e considerada uma das 7 maravilhas do mundo.
À noite, podia dormir observando a lua e as estrelas. Era realmente como estar numa embarcação, só que sem o balançar do mar. O proprietário era um ex-engenheiro naval, o que explicava as janelas.
Um dos meus passeios favoritos em Cape Town foi no aquário. Eu fiz um mergulho lá em um aquário gigantesco. Foi como ter virado uma miniatura e mergulhado nesses aquários de casa. Eu pude ver de pertinho diversos tipos de raias, tartarugas, cardumes de peixes de vários tipos. Já estava sonhando com a possibilidade de trabalhar lá como mergulhador.
Gostava bastante de visitar livrarias e sebos. Devo ter conhecido todos os sebos da cidade. Me senti na adolescência novamente, quando era frequentador dos sebos lá na minha cidade, só que dessa vez eu pagava pelos quadrinhos.
Aprender uma nova língua é algo interessante: muitas vezes você se sente como se estivesse revivendo a infância, depois a adolescência, até chegar à fase adulta. Trazendo para o mundo dos games, é mais ou menos como criar um segundo avatar.
Me matriculei em uma escola de inglês, mas frequentei apenas a primeira semana. Achei que era um valor muito alto e muito tempo gasto dentro da escola, então desenvolvi minha própria metodologia para praticar o inglês.
Ativei novamente o aplicativo de relacionamento, e foi através dele que conheci muitas pessoas. As meninas tinham bastante curiosidade sobre o Brasil, e consegui marcar muitos encontros.
Nos primeiros, com poucas e arrastadas palavras sendo trocadas, mas ao final já conseguia ter uma conversa muito mais verbalizada. Tive alguns micro-relacionamentos que marcaram bastante, alguns pedaços do meu coração ficaram em Cape Town com certeza.
Também procurava outras formas de interação, para não ficar apenas nos encontros pelo app. Descobri uma casa de poker, e através da casa de poker cheguei a uma pessoa que organizava torneios, bem parecido com os torneios organizados por mim aqui no Brasil.
Foi nas mesas de poker onde me senti em um ambiente mais familiar: o clima informal onde todo mundo meio que já se conhecia, as conversas e brincadeiras. Às vezes podia jurar que estava de volta ao Brasil.
Frequentei bastante o Cassino da Cidade. Final de semana, ele é um programa para toda a família e principalmente para os jovens. Eu jogava bastante blackjack. Além de gostar do jogo, eu arriscava umas interações com os outros jogadores.
Uma coisa que só chegou meio tarde para mim enquanto lá, ainda bem, foi a noção que o Apartheid ainda é muito recente, e as marcas da segregação ainda são muito presentes. Tinha saído com uma moça negra que conheci pelo app. Estávamos em um espaço público, uma espécie de feira gourmet.
Ela me fala que um casal estava encarando e olhando pra gente há um tempo. Eu tento disfarçadamente olhar na direção que ela me indicou: era um casal na faixa de 50 anos, brancos e loiros, e o casal não só encarava, mas estava com um semblante de cães prestes a atacar, apenas ignoramos o casal e comemos normalmente.
Assim que cheguei na África do Sul, uma das coisas que me deu maior choque cultural foi não encontrar pessoas mestiças: ou as pessoas eram bem negras ou bem brancas. Mas todos os lugares por onde andei sempre tinham pessoas brancas e pessoas negras, por isso estranhei o comportamento daquele casal.
Minha estadia de 3 meses na África do Sul foi chegando ao fim. Eu passaria bem mais tempo na cidade. Estava até cogitando tentar arrumar um emprego e prolongar minha estadia por tempo indeterminado, mas fiquei me perguntando: quanto tempo demoraria para meus demônios me acharem aqui? Acho melhor voltar e resolver as coisas com eles de uma vez por todas.
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