Diario de um ApocalipseАвтор: Ed Angelis
Sinal Divino
Um dia, assisti na internet o vídeo de um pescador subaquático de algum país distante da Ásia; ele descia vários metros de profundidade sem nenhum equipamento mais sofisticado, apenas usando o ar em seus pulmões.
Lá no fundo, ele ficava por minutos aguardando a oportunidade de fisgar algum peixe. Achei aquilo fascinante; assim como na vela, aquilo era uma imensa demonstração de domínio sobre a natureza.
Comprei equipamentos básicos para a prática do mergulho em apneia: nadadeira, máscara e cinto de lastro. O cinto de lastro nos ajuda a ter flutuabilidade negativa — nós temos flutuação positiva, e, principalmente no mar, é muito difícil conseguirmos submergir sem um lastro de chumbo, que deve ser usado apenas com treinamento adequado.
Além da vela, agora ia ao mar para praticar mergulho quase todos os dias; praticava no mesmo local onde andava de stand up paddle.
Os impactos positivos que essas práticas tiveram na minha saúde foram grandes, e agora eu sabia que tinha dado alguns passos na direção correta; mas tinha caminhado muito tempo na direção errada, e o caminho a percorrer de volta ainda era muito longo.
Durante um dia de prática de mergulho, aconteceu algo que iria mudar minha vida pra sempre. Era final de tarde; eram umas 4 horas da tarde, mas estava bem nublado, e parecia que era ainda mais tarde.
Tentei fazer alguns mergulhos, mas com a falta de luz e com o fundo bem mexido e turvo, os mergulhos não estavam sendo muito legais. Então, parei em uma balsa que estava sempre ancorada no mesmo lugar, a uns 100 metros da costa — nadadores subiam nela para descansar do nado.
Quando cheguei lá, havia 2 pessoas. Amarrei a prancha de stand up na balsa e comecei a conversar com os dois que estavam lá sentados na beira da balsa, apenas com os pés na água; eu ainda estava dentro d'água, me apoiando na prancha.
Em algum momento, um deles diz ter avistado uma barbatana na água; um deles cogitou ser um tubarão. Eu sabia que a aparição de golfinhos naquela praia era algo frequente, então achei mais provável ser um golfinho, e queria subir na balsa para tentar avistar ele.
Tirei minhas nadadeiras e as prendi na prancha; em seguida, tirei meu cinto de lastro, um cinto com 3 pedras de chumbo com 2 quilos cada. Ao retirar o cinto, ergui ele para fora da água e coloquei em cima da prancha.
Com o balançar das ondas, o lastro escorregou e foi direto para o fundo. Mergulhei no mesmo instante em busca dele, mas, sem lastro e sem nadadeiras, não conseguia alcançar o fundo, mesmo com muito esforço — acredito que devia ter uns 3,5 metros de profundidade.
A água estava muito escura e turva, e sequer avistei o cinto de lastro na tentativa mal sucedida de alcançar o fundo. Aprendi na prática uma das regras de segurança mais importantes no mergulho: a nadadeira sempre é o último equipamento a ser removido.
Após a tentativa frustrada de chegar ao fundo, volto à superfície, removo as nadadeiras que estavam presas à prancha e, correndo contra o tempo, as coloco.
Com o balançar das ondas e da correnteza, as chances de não estar mais no local onde o lastro caiu eram grandes.
Já com a nadadeira nos pés, desço para mais uma tentativa; agora sim, consigo alcançar o fundo, mas lá a visibilidade estava zero, tendo que procurar o lastro tateando o fundo.
Mas não estava mais no lugar onde o lastro havia afundado, pois nada encontrei. Faço várias tentativas seguidas, sempre tendo que tatear o fundo — uma grossa camada de sedimentos havia sido levantada devido ao mar agitado e com forte correnteza no fundo.
Fiz mais inúmeras tentativas sem sucesso, e agora já estava cansado — e agora sozinho, já que a dupla que estava na balsa tinha ido embora em algum momento enquanto eu estava no fundo, e agora estava ainda mais escuro.
Também pensava na barbatana que o rapaz disse ter avistado; não queria nenhum encontro inesperado nem com um golfinho, muito menos com um tubarão — só queria encontrar meu cinto de lastro.
Agora, com o cansaço e a escuridão chegando, eu já estava aceitando que tinha perdido meu cinto de lastro. Então, me preparei para a última tentativa, e, antes de mergulhar, impulsionado pela aflição do momento, eu clamo ajuda divina: "Me ajuda, Senhor."
Mas, praticamente no mesmo instante que digo essas palavras, eu reflito um pouco, e percebo a insignificância dessa perda, não justificando que eu estivesse clamando pela ajuda divina, e então eu digo: "Perdão, Senhor."
E nesse instante, eu vejo a superfície do mar se iluminar. Eu tomo um susto com a sincronia do evento; eu olho para o céu, e o sol encadeia minha vista.
Eu retorno o olhar para o mar e vejo uma onda enorme, muito maior que as que estavam passando por mim até o momento.
Eu estou a alguns metros da balsa, e vejo a onda levantar a balsa bem alto e, em seguida, vir em minha direção.
Ela também me levanta bem alto, e realmente pude constatar que ela era bem maior que as outras.
E, logo após ela passar, eu sinto que algo muito especial aconteceu, algo divino, e, com uma certeza difícil de descrever, eu sabia que no próximo mergulho eu iria encontrar meu lastro.
Eu faço a manobra para mergulhar e afundo; mal tinha apontado a cabeça em direção ao fundo, e vejo o cinto de lastro bem na minha frente.
A água que antes estava turva agora estava límpida — eu conseguia enxergar os detalhes do fundo com nitidez, e o lastro bem iluminado com a luz do sol, com tons de amarelo.
Seguro na ponta do cinto e subo; me agarro à prancha, sentindo um turbilhão de emoções, e uma pergunta que não saía da minha cabeça: por quê?
Passei dias pensando no significado daquele sinal: seria um chamado? Como levar a vida dali para frente? Devo levar uma vida religiosa, e tentar me aproximar mais de Deus? Eu não sei se estava preparado para isso; eu não sentia essa vocação em mim.
Eu ainda não sabia o motivo e o significado daquele sinal, mas eu tinha aprendido uma coisa, quais eram as palavras mais poderosas do mundo: "Perdão, Senhor!"
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