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Diario de um ApocalipseАвтор: Ed Angelis

A casa dos meus pais

Chego na minha cidade dia 27 de Setembro de 2025, quando saí de minha cidade em meados de 2015, morava com minha mãe em um prédio antigo bem no centro comercial da cidade de Campina Grande na Paraíba, cidade com cerca de 500 mil habitantes, segunda maior cidade do estado, e bem conhecida pela festa de São João, que ocorre durante todo o mês de junho. Morava a 5 minutos andando do local dessa festa, onde morei desde os meus 7 anos, e fiquei, entre idas e vindas, até minha partida para cidade de Natal em 2015 e depois Maceió em janeiro de 2016.

Meus pais já não moravam lá há uns anos. Agora eles estavam morando na antiga casa do meu avô e da minha avó, pais do meu pai, meu avô falecido há 30 anos e minha avó falecida há 4 anos. Após a morte de minha avó, meu irmão mais novo havia comprado a parte dos meus tios e a do meu pai aparentemente. Meu pai foi quem cuidou da minha avó nos seus últimos dias.

Cheguei na casa e ela estava totalmente reformada e modernizada. Algo que me chamou a atenção de cara foi o sistema de câmeras, 9 no total: 3 para a rua, 3 apontando para a entrada da frente, 1 na garagem, 1 no interior da sala e 1 no interior da cozinha. A casa antiga, com paredes descascando e caindo aos pedaços, deu lugar a uma cerâmica bem luxuosa, muitos espelhos e um sistema de luzes requintado. Um servidor no depósito também chamou a atenção: ele conectava todas as câmeras, luzes e não sei o que mais, e tornava a casa inteligente. A porta eletrônica, grande e pesada, fechava o sistema da casa.

Lá estavam morando meu pai, minha mãe e uma de minhas sobrinhas, filha do meu irmão mais velho. A mãe dela morava numa cidade vizinha, e ela estava morando com meus pais por conta do colégio, o pai dela morava a uns 3 quarteirões de distância, com a mulher e meu sobrinho de 5 anos.

O apartamento do Centro ainda pertencia à família, um funcionário do meu irmão estava morando nele atualmente. Esse apartamento fica em um prédio bem icônico da cidade, construído na década de 1950 como sendo o primeiro prédio de luxo da cidade. Ele sobreviveu e assistiu à cidade crescer e mudar ao seu redor, e pessoas irem e virem, lembro que era vizinho de um famoso palhaço, o palhaço Pipokinha, que tinha um programa diário na TV local.

Recentemente, pesquisando sobre a história do prédio, também descobri que um famoso quadrinista viveu lá muitos anos antes de mim: o artista Mike Deodato, quadrinista responsável por desenhar personagens como Homem-Aranha, Batman, entre outros, que fizeram parte da minha pré-adolescência quando colecionava quadrinhos. Devo ter apreciado sua arte mesmo sem saber que ele era alguém da vizinhança.

De lá são todas minhas memórias da infância e da adolescência. Dois tios meus também moravam no prédio, e o convívio com meus primos também era uma constante. O prédio era formado por 3 blocos que se ligavam pela cobertura, a cobertura parecia uma grande praça pública, ficava imaginando aquela cobertura nos tempos aureos do edificil, as pessoas mais influentes da cidade socializando ali naquela praça privada, agora estava caindo aos pedaços, mas ainda tinha uma ótima função como um playground para as crianças dos blocos, que na sua grande maioria era eu, meus irmãos e meus primos.

Apesar das memórias de infância e adolescência, saí de lá com um gosto bem amargo como quem sai de um lugar amaldiçoado e jurando nunca mais retornar. E como a intenção era ficar próximo dos meus sobrinhos, nem procurei saber sobre o apartamento e fico em um quarto na residência dos meus pais.

Bem lá no fundo eu tinha uma certa esperança de reconciliação, e nos primeiros dias lá, eu até estava bastante otimista, como eu torcia para estar louco, e saber que agora são, eu poderia ter uma convivência pacífica com meus pais e irmãos.

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