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A casa do mergulho

Em Maceió, eu iria morar em um dormitório que a escola fornecia para seus alunos pretendentes a instrutor de mergulho; nesse dormitório também ficava a parte operacional da operadora, e os donos também moravam lá. Era uma total imersão no mundo do mergulho.

Assim que cheguei na cidade, fui até o escritório da operadora, onde conheci o dono e sua mulher, que também era sua sócia. Ele explicou onde ficava a casa do mergulho, como a chamávamos, e lá teria outros alunos para me receber. Estavam morando na casa, além dos donos da operadora, um aluno do Rio de Janeiro e outra aluna de São Paulo, e logo chegariam mais alunos, sempre de diversas partes do Brasil. O convívio social iria fazer bem para que eu também trabalhasse minhas habilidades sociais, que eram mínimas.

Iria ficar na casa por 3 meses, tempo de duração do curso, pois para formação como instrutor era necessária a realização de pelo menos 80 mergulhos registrados e assinados por outro instrutor. A moradia e os mergulhos eram um escambo que a escola fornecia em troca da ajuda dos alunos nas operações.

A rotina na casa do mergulho era muito simples: quase todos os dias, acordar umas 5:30 da manhã, carregar a carroça do carro com cilindros e equipamentos de mergulho, ir para a praia, descarregar tudo, carregar tudo em uma jangada, passar tudo para a lancha da operadora, realizar os mergulhos com os turistas ou de treinamento do curso, e, após os mergulhos, fazer todo o caminho inverso, lavar todo o equipamento, encher os cilindros vazios no compressor, e a operação estava finalizada. Aí à tarde, normalmente, tínhamos aulas teóricas. E foi assim por mais ou menos 3 meses.

A maior parte dos mergulhos eram realizados próximo à costa, nas piscinas naturais de Maceió, com profundidades máximas de 5 metros. Era um mergulho tranquilo, perfeito para iniciantes.

Para mergulhadores já certificados, íamos para um dos 4 naufrágios que havia próximo à costa, com navegação entre 1 hora e 2 horas da costa até o ponto de mergulho, com profundidades entre 20 e 40 metros.

Dos naufrágios, o que mais frequentávamos era o naufrágio Draguinha; em dia em que a visibilidade estava muito boa, podíamos ter uma imagem aérea, vendo todo o naufrágio de uma ponta a outra, repousando nas areias brancas do fundo do mar. A primeira vez que o vi assim, parecia que eu tinha entrado em um sonho; era uma imagem surreal, um verdadeiro quadro surrealista.

Também tínhamos o naufrágio Itapagé, famoso naufrágio que foi torpedeado por um submarino alemão na época da Segunda Guerra. Até hoje encontramos muitas marcas da época nos mergulhos, como porcelanato, garrafas de bebidas e munição; no meu último mergulho, trouxe como suvenir um pequeno frasco de perfume. Ele também é o maior e o que está na maior profundidade de todos os quatro, e também é o mais distante da costa de Maceió, o que tornava a navegação mais difícil, por isso íamos com mais raridade para lá.

Outra nova experiência que vivi durante o curso foi a realização da amarração da lancha no fundo do oceano; até então, eu apenas submergia usando como guia a corda de amarração.

Um dia, meu instrutor me escala para realizar a amarração do barco.

Os mergulhos que até então eram de contemplação, e eram quase uma meditação de tão calmos, mas esse mergulho é adrenalina do começo ao fim.

Eu me equipo e me posiciono na popa da lancha, seguro a ponta da imensa corda que irei usar para amarrar a boia que servirá de apoio.

Eu aguardo o comando do piloto informando que estamos bem abaixo do ponto de mergulho; quando receber seu OK, tenho que saltar no mar segurando a corda, e tenho que submergir e nadar rapidamente para o fundo, pois correntezas podem nos deslocar para fora do ponto.

Em dia em que a visibilidade não está perfeita, não enxergamos o fundo de cara, e temos que nadar o mais rápido que conseguimos em direção ao vazio completo — era esse o caso naquele dia.

O piloto então vai informando a distância até o ponto do mergulho, 50 metros, 30 metros, 10 metros, e me dá o OK para mergulhar. Mergulho e começo a submergir. A visibilidade neste dia realmente estava bem ruim, e agora, sem nenhum cabo guia, sem saber aonde iria cair, e o pior, sozinho, eu nado o mais rápido que consigo por segundos que pareciam uma eternidade, sem saber se iria encontrar as rochas onde iríamos realizar o mergulho ou se iria cair num imenso deserto de areia.

Mas aos poucos um portal vai se abrindo, e o que era apenas turvidez vai dando lugar a um mundo de cores e vida; nos últimos metros, o fundo estava com a água bem límpida. Quem cai para fazer a amarração às vezes tem o privilégio de ver coisas que os outros não conseguirão; nesse dia, por exemplo, eu vi uma imensa tartaruga, e, ao me ver, ela logo nada para longe.

Chegar ao fundo é apenas metade do trabalho: ainda tenho que encontrar uma rocha firme o suficiente para suportar a lancha, depois subir deixando a corda o mais vertical possível e, na superfície, amarrar uma boia a ela. Agora sim o caminho está pronto para os outros mergulhadores poderem descer.

Este dia me deu a certeza de que eu estava no lugar certo, fazendo a coisa certa, não queria estar em nenhum outro lugar.

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