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A Infância

Nos primeiros anos de vida morávamos em Campina Grande, sob o cuidado do meu avô. Então meus pais foram morar na capital, João Pessoa. Em João Pessoa, cheguei com a idade de 3 a 4 anos. Lá, morávamos eu, meus dois irmãos, meu pai, minha mãe, e uma menina que veio da cidade de minha mãe, no sertão do Ceará, para ajudar nos serviços domésticos. Ela chegou lá com 12 anos de idade, e ficou conosco até eu já ser um adolescente.

Desse período em João Pessoa, as únicas recordações que tenho são dos jardins das duas casas em que moramos. Não me recordo de nenhum detalhe do interior das casas, assim como de nenhuma interação com ninguém, nem com meus pais, nem com meus irmãos, nem com a menina que morava conosco.

Se fechar os olhos, talvez consiga lembrar de cada galho de uma árvore que adorava subir. Adorava me desafiar a subir cada vez mais alto, e quando atingi um ponto acima da copa, lembro da sensação de vitória e orgulho de mim mesmo.

A árvore era colada ao muro do vizinho, e lembro até do jardim do vizinho um pouco. Lembro de uma lagarta saindo de seu casulo, uma cena que parecia ter saído de um filme de terror. Lembro das flores no jardim. Lembro com clareza disso tudo, mas não lembro das cores das paredes do interior da casa, dos seus móveis, ou das roupas de minha família. Não lembro de seus cabelos e rostos. Não lembro de nenhuma comida, saborosa ou horrenda. Não lembro da praia, nenhuma sensação de areia, água salgada ou sol daquela época.

Retornei para Campina Grande com 7 anos de idade, olhando para as lembranças remotas. Foi como acordar de um coma, mas eu não acordei em um hospital, numa sala vazia e silenciosa. Eu acordei na praça mais movimentada da cidade, com uma multidão de pessoas ao redor, tentando entender onde estava e o que estava acontecendo. No início, tudo ainda era meio turvo, tentando entender que mundo era aquele. Parecia que eu tinha simplesmente brotado ali. Não lembro sequer da viagem de mudança que fizemos. Mas a partir desse momento, todas minhas lembranças são mais vívidas.

Lembro do caos do centro da cidade; aos olhos de uma criança, tudo era novidade, tudo era marcante. Lembro de uns baldes com uns bichos mortos sem a pele, que por muito tempo achei que eram sapos, mas eram codornas. As calçadas estavam abarrotadas de barracas vendendo as mais variadas coisas, inclusive muitos brinquedos, e tinha também inúmeras bancas de revistas. Minha casa nova não tinha mais quintal, mas tinha um mundo todo em volta.

Lembro das escolas frequentadas. Lembro dos desenhos assistidos na TV. Olhando para trás, era como se a vida tivesse começado realmente aos 7 anos de idade, coisa que só fui perceber muitos anos depois.

Meu irmão mais velho era 4 anos mais velho. Naquele tempo, isso era muita coisa. Ele rapidamente se desvencilhou dos irmãos mais novos. Eu e meu irmão mais novo éramos mais ligados, mesmo que vivêssemos brigando mais que gato e rato.

Uma vez, estávamos no parque da cidade; éramos os dois muito pequenos. Minha mãe queria ir embora, mas meu irmão queria continuar brincando. Depois de se irritar, ela foi embora e o deixou lá. Eu fiquei assistindo ela ir embora, e fiquei com ele.

A cena dele sentado na cadeira de balanço, segurando as correntes, com os olhos cheios de lágrimas, nunca deixou minha memória. Lembro de me perguntar se ela ia realmente deixar ele lá e ir embora. Ficava com um olho nele e outro procurando por ela, esperando ela retornar.

Por algum tempo, eu era o típico irmão mais velho, levando ele para os lugares, mas acredito que passamos muito mais tempo brigados do que qualquer coisa. Eu acho que era a diversão dele me atazanar e me tirar o juízo; talvez fosse uma forma dele chamar minha atenção.

Eu, muito introspectivo, não devia ser uma boa companhia. Quando em casa, estava sempre grudado na TV, e sempre queríamos assistir coisas diferentes: batalhas homéricas foram travadas por conta do controle remoto. Eu gostaria de ter sido um irmão mais velho melhor, mas não sei se isso dependia apenas de mim.

Não era somente a mim que meu irmão mais novo atazanava. Ele tinha uma certa relação de abuso com a menina que morava conosco e ajudava nos serviços. Ele, que devia ter entre 5 e 6 anos de idade, vivia aos berros dando ordens para a menina, quase sempre sentado na poltrona assistindo TV. Ele gritava.

  • Traz água.

  • Traz comida. Faz isso, faz aquilo. Acho que pra ele, na época, isso era quase como uma brincadeira. Lembro que me dava nos nervos o tanto que ele molestava ela. E a menina prontamente fazia tudo sem reclamar. Me perguntava na época como minha mãe permitia esse tipo de comportamento.

    Um pouco mais para frente, lembro também de refletir por que aquilo me incomodava tanto. Nunca ninguém tinha me ensinado que aquilo era errado.

    Essa moça que trabalhava na nossa casa era uma pessoa muito divertida, estava sempre rindo às gargalhadas, e sempre cantando. Lembro dela ter uma voz muito afinada. Enquanto eu crescia, de repente ela virou minha primeira fonte de desejo adolescente. Ela morava conosco desde sempre. Quando ela foi embora, ela simplesmente desapareceu da nossa convivência. Fiquei um tempo meio confuso quando ela simplesmente sumiu das nossas vidas. Lembro do meu irmão mais velho falar com tom de raiva do fato dela ter ido embora: "depois que ela não venha com o rabinho entre as pernas", disse ele, como se ela tivesse cometido uma espécie de traição, e essa mágoa talvez explicasse o sumiço dela do nosso convívio.

    Eu estava sempre indo na casa dos meus tios; adorava aparecer de surpresa na casa do meu tio na hora da janta para comer carne moída com pão, que acho que era a única janta que eles faziam, mas não culpo, era muito bom. Minha tia não devia gostar muito de minhas visitas, pois, muito desastrado, não saía de lá sem antes ter quebrado algo.

    Um dia chegou uma novidade grande na casa da minha outra tia: um computador. Foi fascínio instantâneo. Isso era o ano de 94 ou 95. E também estava sempre indo lá para mexer nele, e quem sabe fazer uma boquinha.

    Acho que a infância também foi marcada pelas noites em claro, sempre assistindo televisão até tarde, madrugada adentro, algumas vezes até o amanhecer. Isso não era muito bom para o desempenho escolar, como estudava pela manhã. Até a 8ª série, eu era o aluno da segunda aula; eu quase nunca chegava a tempo para a primeira. Era como se eu tivesse uma vida paralela, de dia e a noite uma vida com os outros, e de madrugada um mundo totalmente novo, onde apenas eu existia, eu a televisão e minhas reflexões.

    Uma coisa muito esquisita acontecia no nosso apartamento de madrugada, quando todos iam dormir: umas formigas chamadas saúvas infestavam o chão de toda a casa. São umas formigas bem grandes, da espessura de uma caneta. Elas tomavam conta de toda a casa, menos dos quartos. Eram milhares e milhares de formigas. Quando tinha que sair do quarto para ir ao banheiro ou na cozinha comer alguma coisa, tinha que andar na ponta dos dedos dos pés, pois elas não deixam espaço nem para eu colocar o pé todo no chão, e sempre pisava em uma e em outra de vez em quando, provocando um estalo bem arrepiante. Quando acordava, acho que pouco antes do primeiro raiar do sol elas já desapareciam completamente, até reaparecerem na próxima madrugada. E não era a noite, era realmente apenas de madrugada. Parecia até magia.

    Por falar em magia, quando eu ouvi a história da loira do banheiro, minhas idas ao banheiro de madrugada começaram a ficar bem tensas. Só ia na urgência e ia correndo, olhando para o chão para não fazer contato com o espelho, até que aquela situação começou a me incomodar. A lenda dizia que, se você fosse no banheiro depois da meia-noite e chamasse por ela 3 vezes, ela aparecia no espelho. Então, um dia, esperei dar meia-noite, fui até o banheiro e, encarando o espelho, chamei a loira do banheiro 3 vezes. Não sei se fiquei feliz ou triste, mas ela não apareceu. Então voltei a ir ao banheiro tranquilamente novamente.

    Acho que o fim da minha infância se dá quando começo a dar mais atenção às meninas. As noites acordado assaltando a cozinha de madrugada não estavam fazendo bem pra minha forma física. Com 12 anos, eu estava bem gordinho. As meninas tinham minha atenção, mas eu não tinha a delas, e aquilo começou a me incomodar.

    Então coloquei na cabeça que precisava emagrecer, e usei a única técnica que uma criança de 12 anos podia conhecer naquela época sem internet: fechar a boca. Eu era bastante bom no jejum intermitente. Eu passava dias fazendo apenas uma refeição por dia, quase sempre um pedaço grande de frango, ou um abacaxi. Um dia vi na TV umas pessoas que se alimentavam de luz. Não custava tentar, pensei. A técnica consistia em olhar pro céu em um ângulo de 45 graus do céu com os olhos bem abertos. Fiz isso algumas vezes até perceber que aquilo não tinha sentido nenhum.

    Achei melhor entrar numa academia do que ficar olhando pro sol correndo o risco de ficar cego. Apenas 6 meses, e os resultados foram evidentes, e as meninas começaram a me notar de volta, muito mais do que eu esperava e estava preparado. Era o primeiro a ser escolhido na hora da dança nas quadrilhas, recebia xauzinho quando estava jogando bola, pegavam minha mão para andar de mãos dadas comigo. Pena que o espírito e a autoestima ainda eram de um gordinho; não sabia muito o que fazer com esse sucesso.

    O que marcou bastante o finalzinho de minha infância foram as revistas em quadrinhos. Eu tinha uma coleção de centenas de revistinhas. Na hora de ler uma revista, eu tinha todo um ritual: eu cobria a mesa do escritório com um lençol, colocava um CD para tocar, e então começava a leitura, e emergia naquele mundo de fantasia. Pena que a coleção teve um fim triste.

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