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Retorno da África

Estou de volta ao Brasil depois de uma temporada de 3 meses na África do Sul. Fui para estudar inglês, mas principalmente fui para fugir do Brasil, não do Brasil realmente, mas fugir da minha vida, fugir de mim mesmo. Às vezes nossa vida se comporta como um rio com uma correnteza bem forte e violenta, que nos leva sem controle, nos deixa indefeso, nos leva para baixo e nos deixa sem respirar, nos choca contra pedras e nos faz sangrar, e quando o rio da vida está assim, precisamos nadar até a beira e sair dessa correnteza, porque se continuamos brigando contra a correnteza, cada vez mais ficamos mais cansados e fracos, até que chegará a hora em que não teremos mais forças para lutar. Eu estava a 1 passo de enlouquecer. Precisava ir para longe e tentar voltar a pensar com clareza para entender o que estava acontecendo. A viagem cumpriu seu papel. Retornei com a cabeça limpa, pensamentos claros, conexão Wi-Fi com o Universo restabelecida.

A princípio foi um choque de cultura gigantesco, mas passado o impacto inicial, em alguns momentos parecia até que tinha retornado para o Brasil, muito pelas semelhanças econômicas, e as semelhantes divisões de classes, mas também por perceber que, olhando de perto, todo mundo é bem parecido, me meti em um torneio de Poker, organizado de forma bem amadora, semelhante a muitos torneios que participei no Brazil, e o clima, as brincadeiras e as interações eram muito semelhantes, realmente parecia que eu estava no Brasil. Passei a maior parte do tempo marcando encontros através de apps de relacionamento. Todos os encontros foram bem agradáveis. Tive alguns romances, uns bem passageiros, outros se tornaram quase micro relações, mas com data para voltar e com futuro incerto, não pude alimentar nenhum por muito tempo. Poderia ter ficado bem mais tempo, gostaria de ter ficado mais tempo, não me importaria de ficar permanentemente, mas talvez ficar correndo dos meus demônios não iria adiantar. Eles sempre iriam me alcançar. Teria que encará-los de frente se quisesse me ver livre deles.

Antes da Viagem para a Africa do Sul, tinha entrado numa espiral de negatividade, e a ansiedade estava deixando minha mente fadigada. Não conseguia dormir, não conseguia trabalhar, não conseguia me relacionar com os outros, e talvez tudo que precisava era dar um tempo para a mente descansar, e agora de volta, tentar entender o que me levou a ficar naquele estado para não cair nesse buraco novamente. De uma coisa eu tinha certeza. Eu não tinha me enfiado naquele buraco sozinho, o problema não estava apenas dentro de mim, mas também vinha de fora, fui empurrado para aquele precipicio, centimetro a centimetro, sem me dar conta do que estava acontecendo, quando vi já estava em queda livre, muitos atos que pareciam inocentes, estavam sendo coordenados, de forma subliminar, para me causar ansiedade, estresse e por fim raiva, mas só pude me dar conta disso após ter minha sanidade reestabelecida.

Estou de volta a Maceió, cidade turística do Nordeste brasileiro, capital do estado de Alagoas, conhecida pelas lindas praias e piscinas naturais. Chego no dia 25 de junho de 2024, estou com 39 anos, e há 9 anos moro em Alagoas. Vim a Maceió para fazer um curso de mergulho e acabei ficando para trabalhar como instrutor de mergulho, levando turistas para ter a experiência no fundo do mar.

Hoje não trabalho mais com mergulho. Migrei para a área de tecnologia, desenvolvimento de software, para ser mais específico. Trabalhei 6 anos como instrutor de mergulho e há 3 anos estou na área de tecnologia, mas estou desempregado no momento, após me afastar da empresa em que trabalhava por conta do meu estado mental e emocional, e agora, depois da viagem, estou próximo da falência financeira.

Voltei a Maceió para tentar terminar meu curso na faculdade, que tinha abandonado por conta da pandemia e depois por falta de motivação e energia mental.

Aluguei um quarto de última hora em um albergue, algo temporário enquanto procurava algo mais permanente. Não consegui achar nada pela internet próximo à minha faculdade, pelo menos não com um preço razoável. Então saí às ruas pela vizinhança à procura de algo, vou perguntando a moradores e comerciantes, e em um mercadinho a dona me fala que tem um pequeno apartamento disponível. Era uma sala e quarto ao lado do mercadinho, em uma rua bem estreita e comprida com casas pequenas, coladas muro a muro. Parecia mais uma vila do que uma rua, um local que à primeira vista parece feio, pobre e inseguro. Com o tempo e convivência, aprendo que tem mais riqueza por metro quadrado naquela rua do que poderia ter na maioria dos condomínios luxuosos. Ali encontrei inúmeras personalidades: crianças brincando na rua o tempo todo, grupo de amigos que se encontram todo fim de tarde para jogar dominó na calçada, finais de semana com mesas postas para fora para confraternizar numa ceia à base de álcool e música popular, todos sempre dispostos a ajudar uns aos outros, inclusive a estranhos que acabaram de chegar para ali morar.

Estava sempre indo ao mercadinho ao lado, ou para comprar alguma coisa ou apenas para conversar e socializar. Ali era um ponto de encontro para algumas pessoas jogarem conversa fora. Sempre tinha alguém disponível para falar de tudo ou de nada. Também tinha a filha da dona, de 2 anos, que sempre estava lá, e suas criancices sempre me deixavam mais leve, apesar de me lembrar de minhas sobrinhas, que estavam em outra cidade e fazia anos que não as via.

Além da dona e sua filha, sempre encontrava lá Dona Margarete, senhora que colocava um carrinho de caldos e sopas na esquina em frente ao mercadinho. Ela era minha vizinha de 2 casas de distância. Sempre a via indo e vindo o tempo todo. Ela estava sempre reclamando da coluna, provavelmente causada pela obesidade excessiva, e estava sempre fazendo piadas com os outros, quase sempre piadas sujas. Tinha também o prefeito, senhor aposentado que estava sempre andando de uma ponta a outra da rua, conversando com todos e sempre sem camisa, e sempre parava no mercadinho para jogar conversa fora.

Tinha uma vizinha que morava em cima do meu apartamento. Ela parecia ter poucos anos a menos que eu e morava só. Ela tinha seus encantos, e a princípio fiquei de olho na oportunidade de conhecer ela melhor. Ela havia separado, tinha 2 filhas que estavam morando com o pai, e aos finais de semana as filhas vinham ficar com ela, mas não todos os finais de semana. Quando elas estavam no apartamento, era comum ouvir uma das crianças berrando a todo pulmão incessantemente por horas. Era bem atormentador. Ela tinha cerca de 8 anos. Segundo a mãe, ela tinha autismo e tinha crises constantes.

Uma vez, sentado na frente do mercadinho, em uma das mesas que ficava na frente, assistia essa minha vizinha interagindo com sua filha mais velha. Na conversa, ela perguntava à filha: – Quem foi que fez esse olhinho? Então a mãe mesmo respondeu: – Foi mamãe que fez para você. – Quem foi que fez esse narizinho? Então a filha respondia: – Foi você, mamãe. – E esses dedinhos, quem foi que fez? – Foi você, mamãe. E assim continuou. Me deu bastante a impressão de um pensamento narcisista, por pouco não pergunto para a mamãe se ela era cientista. Queria que ela me explicasse o funcionamento de uma célula nos mínimos detalhes, ou do sistema nervoso, ou explicasse para mim o DNA. Arriscaria dizer que ela não entendia de nada disso, e para mim o único mérito dela para a geração de uma nova vida foi ter tido relação sexual com alguém do sexo oposto, pôde ter sido apenas uma conversa inocente entre uma mãe e uma filha, mas se olharmos nas entre linhas, aquela cena pôde ser o retrato de um pensamento narcísico.

Se você acredita em Deus assim como eu, você deve dar todo crédito sobre a geração de uma nova vida a Deus. Se não acredita em Deus, deve dar o crédito aos milhões de ancestrais antes dela e aos bilhões de anos de evolução. Em qualquer um dos casos, é imoral pegar para si esse mérito. Narcisistas não só tomam para si esse mérito, mas tomam os filhos como sua propriedade, se elevam como Deuses e filhos como criaturas. Tenho pensado muito ultimamete sobre a personalidade narcísista em varias esferas diferentes da sociedade, esse traço de comportamento é muito comum, mas sequer notamos. Os narcísicos querem aprisionar os filhos, moldar a personalidade e a vida dos filhos a seus interesses, o que deveria ser o inverso. Os pais têm que moldar suas vidas aos interesses dos filhos, mas essa lógica é totalmente invertida na mente de alguém com personalidade narcisista. Para os narcisistas, o filho sequer existiria se não fosse por eles. Isso transfere a eles um poder de Deuses, um poder de dar a vida, e quem sabe até de tirá-la. Eu não pude investigar mais a fundo a personalidade de minha vizinha, para constatar realmente se era uma pesssoa narcisista de fato, pois deixei a pequena vila pouco tempo depois.

A pouco tempo que estava lá eu já descobri que minha matrícula na faculdade havia sido cancelada, mas onde eu morava ficava bem perto de um co-work público vinculado a prefeitura, por isso fiquei lá ainda um tempo, para aproveitar o espaço, onde iam muitos estudantes e aconteciam muitos eventos de tecnologia, eu ia diaramente para estudar e para enviar currículos para empresas.

Eu já estava decidido a voltar para minha cidade, há meses que não tinha contato com ninguém, há anos que não via meus sobrinhos: 1 menina de 14 anos, que tinha tido um problema na infância e havia perdido boa parte da visão, 2 meninas de 10 anos, e 1 menino de 6, minha intenção era voltar e passar tempo suficiente com eles para aproveitar o restinho de infância deles e ver minhas sobrinhas virarem adolescentes, e também para enfrentar meus demônios de uma vez por todas e ir em busca das respostas que procurava, na verdade, das confirmações.

Eu gostaria de voltar estando empregado assim não ficaria tão a mercê, mas com o dinheiro chegando ao fim não tive alternativas, fiz contato com minha mãe, avisei de minhas intenções de passar uma temporada lá, e parti de Maceió, minha estadia em Maceió dessa vez foi por cerca de 3 meses apenas, parti sem saber quando retornaria ou sequer se um dia retornaria.

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