Diario de um Apocalipse作者:Ed Angelis
Voltando para casa da infância
Depois de 2 meses da discussão com meu irmão sobre as câmeras que eu havia removido, o nosso apartamento no prédio antigo no centro é desocupado. Vou conferir seu estado, e não estava muito legal: paredes muito manchadas, focos de umidade e mofos por toda parte. A vizinhança continuava a mesma de quando saí de lá há 10 anos atrás. Apenas as pessoas tinham ficado mais velhas, as crianças crescido, e novas crianças apareceram.
O prédio é formado por 3 blocos, cada bloco com 4 apartamentos, 2 por andar. Meu primo mora no mesmo bloco que eu, ele que é 1 ano mais novo que eu, e praticamente cresceu por ali também, mas hoje ele mora apenas com sua esposa. Os pais estão falecidos, e todos os outros 3 irmãos já não moram lá.
Nos outros 2 apartamentos do mesmo bloco, moram pessoas que também já estavam lá há muitos anos. O vizinho do meu primo é um conhecido de muitos anos do qual nunca tive muita intimidade; ele mora com sua mãe. E vizinho ao meu apartamento, mora uma moça que também chegou lá quando eu ainda era um adolescente. Hoje ela mora com o marido e duas filhas, uma de colo e outra que tem mais ou menos a idade das minhas sobrinhas, uns 11 anos de idade. Tenho a imagem de vê-la ainda bem pequena no colo da mãe, 10 anos atráz, antes de sair de lá.
O prédio fica bem no centro comercial da cidade, com bastante movimento e tráfego. Abaixo do prédio, funcionam inúmeras lojas de revenda de carro usado e oficinas de motos, e à noite não tem quase nenhum movimento.
Minha passagem por Maceió foi o período mais longo que passei longe desse apartamento, e depois de 10 anos parecia que tinha ficado fora apenas por um feriadão prolongado.
Depois de uma semana arrumando e pintando, eu me mudo. O apartamento é imenso, e no momento, sem nenhum móvel, faz ele aparentar maior ainda. Na cozinha, há apenas a geladeira, o fogão, e uma prateleira de madeira ainda original do apartamento. Na sala, onde montei meu ambiente de trabalho, tem apenas um balcão que fiz com uma porta. No quarto, onde durmo, tem uma mesinha de vidro que transformei em mesa de leitura, uma prateleira de livros, e uma rede. E tem mais um cômodo totalmente vazio. Preenchi o apartamento com algumas plantas, e alguns quadros da minha avó que estavam no depósito na casa dos meus pais.
É incrível como as memórias da juventude ficam gravadas na mente como talhadas na pedra, mesmo depois de mais de uma década não morando aqui. Quando andando no escuro, me pego algumas vezes me desviando de móveis que não existem mais, tentando ver as horas no relógio da parede que já não está mais lá, ou querendo ir me olhar no espelho que já não está lá também.
Apesar de sozinho, do apartamento vazio, de ter saído de lá bem infeliz, com poucas boas recordações, que foram totalmente engolidas pelas recordações ruins, apesar de tudo, me sinto em casa, como não me sentia há muito tempo.
Eu estou em paz, mesmo com o mundo implodindo ao meu redor, mesmo isolado da minha família, sem amigos, sem nenhum relacionamento amoroso há algum tempo, desempregado há mais de 1 ano. Mesmo assim, estou em paz. Tenho todos os motivos do mundo para estar infeliz e desesperado. Esta paz vem um pouco do alívio de sair de um ambiente onde me sentia hostilizado e já não me parecia familiar, mas é muito mais que isso. Essa paz vem da minha fé restaurada, da minha força interna recarregada, da confiança em mim mesmo — confiança de que sou senhor da minha mente novamente, de que ninguém vai conseguir manipular meus sentimentos e me desestabilizar tão facilmente novamente. E é essa paz que aproveito para estar aqui, contando minha história e mostrando o mundo através da minha perspectiva.
Espero conseguir explicar o que me trouxe até aqui, de onde vem essa paz, e como acho que minha história se funde tão intrinsecamente ao momento atual em que vivemos.
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