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Diario de um Apocalipse作者:Ed Angelis

O jogo da vida

Uma coisa ficou clara para mim logo cedo: a busca material não era só uma escolha filosófica que eu podia me dar ao luxo de ter ou não. Era uma questão de sobrevivência, inclusive sobrevivência amorosa.

Apesar do jogo pela busca material ser injusto, pois uns já começam bem à frente, eu nunca tive problema com a materialidade da vida. Eu mesmo sempre fui muito consumista, pois tudo que eu gostava custava dinheiro: videogames, computadores, livros, revistas. Inclusive, após um repentino desejo de sair por aí velejando pelo mundo e descobrir que veleiros eram bem caros, surgiu em mim um grande desejo de ter muito dinheiro. Duas ideias sempre lutaram dentro de mim para ver quem prevalecia, uma de que eu precisava de muito dinheiro para ganhar minha liberdade, e outra que eu precisava me libertar da necessidade de se ter dinheiro, duas ideias aparentemente opostas, mas que colidiam em um ponto, de que felicidade era não ter que se preocupar com dinheiro, e as duas atingem o mesmo objetivo de duas formas diferentes. Pelo menos na teoria, quando se tem dinheiro suficiente, a preocupação com dinheiro deveria sumir, apesar de que na prática não é assim que funciona.

Como falei, não vejo problema em querer ter dinheiro para adquirir coisas e fazer coisas, o grande problema do jogo material realmente é seu lado predatório e acumulatista. Dentro de mim sempre teve o lado material e o não material debatendo, encontrar um ponto de equilíbrio sempre foi meu objetivo, mas quem desligou totalmente o interruptor do seu lado não material vive exclusivamente para o jogo, e se o jogo acabar, sua razão de ser simplesmente evapora, por isso é imprescindível manter o jogo vivo. E é preciso convencer as pessoas que a vida é isso, que não existe outro jogo para ser jogado. E enquanto a maioria das pessoas realmente estiver jogando esse jogo, realmente não haverá outro jogo para ser jogado.

E chega uma hora que o jogo não se trata mais de adquirir coisas, mas sim pessoas, ter pessoas sob a sua zona de influência. E quem já chegou nesse nível do jogo sabe que a questão não é a quantidade de riqueza que se tem, mas ter uma grande diferença entre o que ele tem e o que os outros têm. Então, quanto mais pobres as pessoas forem, maior será sua riqueza, que é medida agora pela quantidade de pessoas que ele consegue comprar (influenciar).

O jogo pôde ficar perigoso de tal forma que países inteiros podem ser levados a empobrecer. Um país não é mais invadido para ele ser conquistado: basta que as pessoas fiquem pobres o suficiente.

Eu não queria jogar esse jogo insano. Eu só queria uma namorada e, quem sabe, viajar o mundo em um veleiro, mas mesmo que eu não quisesse jogar, minha vida estava à mercê da insanidade de poucos.

Meu primeiro emprego foi na lan house que frequentava, com uns 16 anos. Antes, tinha feito pequenos bicos para conseguir uns trocados. Depois, fui trabalhar com meu pai em um novo ramo de negócio que ele estava iniciando. Para isso, precisava mudar para uma cidade do interior.

Depois de alguns anos trabalhando com meu pai, mudando pelo menos 3 vezes para cidades diferentes, morei em João Pessoa e, por último, em Natal. Quando a empresa do meu pai fechou de vez, estava com 22 anos de idade e não tinha a menor ideia do que iria fazer da vida ainda. E essa falta de perspectiva e de dinheiro estava começando a virar um peso enorme.

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