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Diario de um Apocalipse作者:Ed Angelis

O Vizinho

Em João Pessoa, o local em que morava era um apartamento pequeno de um cômodo apenas, a uns 100 metros da praia. Minha vizinha da direita era uma senhora que morava sozinha e residia lá há muitos anos. Meu vizinho da esquerda era um homem nos seus 40 anos que também morava sozinho e só via nos finais da tarde, quando ele chegava do trabalho.

Um dia, vejo uma mulher na faixa dos seus 30 anos, bastante acima do peso, chegar com uma criança pequena, na faixa dos seus 3 anos de idade. Noto a criança bem sonolenta.

Elas se hospedam no apartamento desse meu vizinho, e ele me fala que são sua irmã e sobrinho que estavam lhe visitando.

Não me lembro de ter visto nem a mulher nem o menino fora do apartamento uma segunda vez, mas escutava o menino chorar constantemente dentro do apartamento.

Aquele comportamento estava bem estranho, afinal eles estavam na praia. Não tinha por que ficarem trancados dentro do apartamento, ainda mais por ser uma criança pequena e o apartamento não ser muito grande.

Aquilo estava me incomodando muito, e fiquei ainda mais atento ao comportamento dos vizinhos, e via se realmente eles não saíam do apartamento ou se eu apenas não os via saindo. Depois de uns dias, eles foram embora sem que eu os tenha visto.

Durante minhas caminhadas, vejo esse vizinho. Ele me cumprimenta com um grande sorriso, tenta socializar um pouco, mas não dou muita bola e sigo minha caminhada.

Outro dia, chegando em casa, esbarro com um grupo de pessoas saindo do corredor que dava para meu apartamento.

Meu apartamento era o penúltimo, e o do meu vizinho era o último no fim do corredor, então eles só poderiam estar vindo do apartamento do meu vizinho.

Dentre as pessoas estava uma mulher grávida, num estágio bem avançado da gestação. Ao passar por mim, ela parecia tensa.

Olho nos seus olhos e não vejo um sorriso de cumprimento. Ela também olha nos meus olhos, e até hoje tenho a sensação dela estar querendo falar comigo através deles, mas tendendo a pensar que aquilo tenha sido apenas coisa da minha cabeça.

O vizinho se muda não muito tempo depois, e tudo aquilo fica na minha cabeça.

Penso na possibilidade de que eu estivesse diante de uma rede de tráfico infantil.

Isso me angustia até hoje, principalmente em pensar que eu poderia ter sido omisso, e com uma simples ligação anônima eu poderia salvar o destino de uma ou de várias crianças.

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