Diario de um Apocalipse作者:Ed Angelis
A Mulher e a Vassoura
Retornei de Fernando de Noronha direto para a praia que se tornou minha segunda terra natal, a praia do Francês. Aluguei um pequeno quarto em uma pousada na parte mais antiga da praia, na antiga vila dos pescadores, que hoje não tinha muitos pescadores. Era uma parte turística, mas ainda tinha muitos dos seus antigos moradores. A localização era perfeita: tinha voltado a dormir ao som das ondas e a vizinhança era ótima.
Reparei em uma senhora que todos os dias varria a rua e a calçada removendo a terra da praia, que ficava a poucos metros de distância. Pensei comigo mesmo: que tarefa árdua, ter que varrer a calçada, sabendo que amanhã a rua e a calçada estarão cobertas de areia novamente.
Mas, refletindo um pouco mais, percebi que aquilo é um grande simbolismo do que é a vida: temos que aceitar que sujeiras se acumulam, externas e internas, e que precisamos todos os dias varrer a areia de dentro de nós, sabendo que amanhã a calçada estará coberta de areia novamente. Quanto antes entendermos isso, melhor.
O mundo o poder tem a tendência a se acumular. Não deixar que o poder se acumule é uma tarefa árdua e diária também, e já faz um tempinho que ignoramos esse acúmulo.
E parece que o mal, como um vírus, fica à espreita desse desequilíbrio para se proliferar, como um vírus ou uma bactéria que ficam sob controle, até que a imunidade baixa e eles se proliferam.
Quando esse desequilíbrio e acúmulo de poder saem do controle, as pessoas são postas contra a parede e são obrigadas a escolherem: se desvirtuarem para servir os poderosos, ou permanecerem retas e combaterem esse desequilíbrio.
Decerto esse desequilíbrio torna o grande organismo humanidade doente, e, como todo ser doente, ele vai entrar em estado febril, lutando para sobreviver contra o desequilíbrio.
Peguemos nossas vassouras e comecemos a varrer a rua.
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