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Ùltimos dias em São Paulo

Chego à casa da minha tia em Osasco, e tenho uma primeira noite perfeita: me sinto em um ambiente familiar novamente.

Chego na segunda-feira à noite, dia 17 de agosto, e iria ficar até dia 29, quando partiria meu voo de volta para minha cidade.

Nunca tinha tido contato mais próximo com essa minha tia. Assim que cheguei em São Paulo, fui visitá-la rapidamente, e essa tinha sido minha segunda vez que a estava vendo.

Tinha mais contato e intimidade com uma outra tia que morava também ali próximo, mas já havia notado um comportamento com viés da direita, então resolvi arriscar com essa outra tia, que, mesmo sem me conhecer bem, não se recusou a me dar abrigo.

Os dias que passo por lá são todos muito parecidos: passo boa parte do dia em São Paulo, conhecendo lugares que ainda não havia conhecido.

A primeira vez que saio da casa da minha tia, no dia seguinte, é para ir ao enterro daquele senhor do centro budista. Fiquei sabendo da morte dele no dia anterior.

Chego no enterro e não encontro ninguém do centro budista. Fico lá fazendo algumas reflexões sobre a impermanência da vida.

No final do velório, na hora das últimas palavras antes da fechada do caixão, encontro finalmente alguém do centro budista: uma integrante antiga, mas que nunca estava presente nas práticas e estudos, só a via quando ela aparecia para adicionar algum detalhe na decoração do ambiente.

Notava que ela sempre estava vestindo preto.

Meus pensamentos, ainda muito borbulhantes de reflexões, seguem o caixão até o enterro, e eu não a vejo mais.

Eu estava estudando a possibilidade de fazer um retiro de longa duração antes de deixar São Paulo, mas não sabia onde poderia fazer. Então contatei a mulher que era uma espécie de gerente do centro budista. Pergunto sobre onde poderia realizar um retiro. Ela diz que, para eu fazer um retiro, seria legal eu ter alguma espécie de tutoria primeiro. Simpatizava muito com ela, ainda mais após ver ela vestindo uma camisa com uma estrela que era muito semelhante à estrela do PT, ainda mais em tempos de política. Pergunto se ela poderia ser minha tutora, e ela fala que poderia sim, e marcamos de conversar melhor um outro dia a respeito.

Antes de desligar, tento conversar um pouco sobre política: falo que vi ela com a camisa do PT. Ela diz que não era do PT, que era apenas uma estrela e que não conversa sobre política. Digo que entendo, e pergunto se ela conhece alguém que é mais militante. Ela diz conhecer, e que inclusive ele poderia me tutorar. Ela me passa seu contato, e marcamos de conversar pessoalmente no centro budista.

Eu gostaria muito de conversar para entender a estrutura desse centro budista: como ele se organiza, como ele mudou durante o tempo. Isso para ver se eu teria alguma abertura para conversar sobre política e sobre como o centro se posicionava politicamente.

Ele fala que só teria o domingo disponível, seria meu último domingo em São Paulo, e tinha programado de ir almoçar em uma ocupação, famosa pela esquerda, que fornecia almoço e algumas atividades aos domingos. Pergunto se ele conhecia o local e se gostaria de me encontrar lá, já que seria minha última oportunidade de conhecer o local. Ele fala que não conhecia. Então já suponho que ele não era tão militante assim quanto eu gostaria. Ele concorda de se encontrar comigo lá.

Tinhamos marcado às 12 horas no Domingo. Na noite anterior, havia ido dormir muito tarde, quase demanhã, e logo cedo, umas 7 horas, mando mensagem para remarcarmos para 13 horas. Até umas 9 horas, ele ainda não havia me respondido nada, então me levanto e vou encontrar com ele às 12 horas. Quando já estou na ocupação, às 11:45, ele me manda mensagem e avisa que vai se atrasar um pouco. Pouco tempo depois, ele avisa que só chegaria às 14 horas. Fico meio puto dele não ter respondido nem falado isso antes.

Aviso que vou almoçar e assistir a apresentação que iria acontecer e deveria estar lá ainda às 14 horas. Se ele chegasse nesse meio tempo, conversaríamos.

Enquanto ele não chega, eu almoço e observo a ocupação. Além de moradores e visitantes, percebo uma figura que se destaca: um homem de farda. Não identifico de que tipo, mas ele era loiro de olhos azuis e usava um corte de cabelo bem característico, um corte automaticamente associado a Hitler e por tabela ao nazismo. Aquela era uma ocupação que sofria bastante pressão e ataques, e aquela presença talvez seria mais uma forma de intimidação.

Tive a sorte de ser um dia bem especial: um grupo de percussão estava prestando homenagem a uma grande matriarca do candomblé, e a apresentação foi incrível. Me emocionei em vários momentos, não sei exatamente o motivo, talvez vários.

Meu futuro ex-tutor chega, e eu mal o reconheço: a aparência um pouco mais desleixada que o via lá no centro budista dá lugar a uma barba lisinha, digna de propaganda de gilete de barbear, cabelo também raspado na base, apenas com o topo da cabeça com cabelo, calça justa, tênis impecável. Quando o vi, associei ele muito mais a um soldado que a um budista. Nos cumprimentamos e ele me chama para iniciarmos nossa conversa em um local um pouco mais isolado, ao que parecia ser um local de oração. Fomos até lá e lá ele inicia sua palestra sobre os primórdios desse centro budista. Ele começa falando das origens do mestre que iniciou o centro que hoje está presente em todos os estados do país. Ele fala que esse mestre era um físico, e que percebeu que alguns comportamentos a níveis atômicos corroboravam com alguns ensinamentos budistas. Minha curiosidade vai se aguçando, mas também um certo incômodo de estar papeando em um local que devia ser de oração. E também ao fato de estar afastado e isolado de todos, em um local que sofria tantas perseguições e ataques, achei que não passaria uma boa impressão dois homens brancos estranhos e novatos, conversando em particular. Então chamo ele para sairmos e irmos para um ambiente mais público. O levo a um local mais central. Ele não gosta do local, disse que prefere um local mais reservado. Eu insisto que o local estava ótimo, que poderíamos conversar ali de boa. Ele se irrita e diz que vai embora. Depois, ainda mando mensagem pedindo desculpas, dizendo que deveria ter explicado melhor minhas razões, mas não tem jeito, e fico sem meu tutor.

O contato com minha tia se dava pela manhã, ao acordar, e à noite, quando voltava de São Paulo.

Os primeiros traços políticos que notei nela se deram quando ela falou da emissora Globo: por ela estar sempre assistindo as novelas da Globo, ela comenta que o povo fala da Globo, mas ela acha uma besteira isso. Até aí, uma posição meio neutra, pensei. Depois, ela rasga elogios a um cantor sertanejo, envolvido em muitas polêmicas e até crimes, ídolo da direita. Aí já me deixa de orelha mais em pé. Mas é só um cantor, penso. Ela não deve nem saber que ele é ídolo da direita.

Um dia pela manhã, ela avisa que a faxineira irá chegar no outro dia às 7 horas. Ela avisa que ela vem toda semana às terças-feiras, e lamenta dizendo que bom era quando a faxineira dormia no serviço, mas aí vieram os direitos trabalhistas obrigando a assinar a carteira das empregadas.

Vem à mente logo a menina que veio trabalhar na casa da minha mãe com 12 anos de idade, eu com 3 anos de idade, e que ficou com a gente até o início da minha adolescência. Moça essa que faleceu recentemente devido a problemas cardíacos.

Penso que isso era muito comum antigamente. Falo pra minha tia não se preocupar, que daqui a pouco ela terá um robozinho pra fazer o que ela quiser 24 horas por dia.

Procuro saber um pouco mais sobre as origens dessa natureza familiar. A família da minha mãe é de uma cidade minúscula, de apenas 3 mil habitantes: meu avô agricultor e minha avó, professora e depois diretora do colégio da cidade. Meu avô bem branco, e minha avó um pouco mais morena.

Pergunto à minha tia como minha avó, sendo diretora de escola, dava conta das tarefas domésticas com tantos filhos. Ela fala que lá na casa deles sempre teve empregada.

Olha aí as origens começando a aparecer, pensei eu.

Pergunto sobre meu avô, que era agricultor, se ele também tinha pessoas trabalhando para ele. Ela fala que sim, mas que meu avô era meio preguiçoso para o trabalho na roça, e ele preferia arrendar as terras para os outros plantarem.

Depois do comentario sobre as empregadas, ficou díficil não achar que estou em um recinto de direita. E agora entendo melhor as profundezas desse pensamento de direita. Já fico em modo de alerta: não comer nada cru sem estar devidamente higienizado, só comer comida devidamente fervida, até quase virar brasa, não comer nada que ela também não coma, etc. Eu sei, como chegamos a esse ponto, não é? Também é o que passa pela minha cabeça agora.

A casa dela fica em cima da firma que ela montou e que hoje quem toma conta é seu filho. Nos primeiros contatos, conversamos sobre futebol e aviso que adoraria ir assistir a um jogo do Palmeiras. Pergunto se os ingressos estão muito caros. Ele fala que é complicado arrumar ingresso em cima da hora, mas que iria ver com um amigo.

Ele fala da vez que meu irmão mais novo esteve em São Paulo e o convidou para ir assistir a um jogo do Palmeiras. Ele falou a mesma coisa pra ele. Então meu irmão disse: se eu conseguir os ingressos, nós vamos, não é? Ele conta animado que meu irmão conseguiu os ingressos e ainda conseguiu no camarote com open bar. Ele fala com ar de admiração, como ele, que mora em São Paulo há anos, não conseguia esses ingressos, e meu irmão conseguiu rapidamente.

Então percebo aquele ar de admiração e de deslumbre. O deslumbre é a maior arma de sedução, e mais barata. Basta um ingresso no camarote, um passeio de lancha de luxo, quem sabe uma festinha numa mansão, e isso já é poder de sedução suficiente.

Em outra ocasião, ele está instalando uma fechadura eletrônica. Pergunto se ele comprou pela internet, ele diz que sim. Da China? Pergunto. Não sou muito fã da China, ele responde, exatamente com essas palavras. Humm... entendi, eu penso.

Um dia pela manhã, minha tia entra em casa com seu neto, filho mais novo do seu filho, uma criança linda de 4 anos de idade. Logo noto que ele tem um corte de cabelo bem parecido com o daquele homem loiro da ocupação. O do meu sobrinho parecia até mais característico, ele branquinho e com os cabelos bem pretos, bem mais fofinho e meigo. Fico me perguntando se o corte de cabelo da criança é uma mera coincidência, ou é um recado sendo passado. Fico na torcida para ser apenas um acidente.

Os dias na casa da minha tia vão chegando ao fim. Viajo no sábado pela manhã. Na quinta-feira à noite, arrumo minhas malas para garantir que elas estariam dentro do peso permitido. Minha tia havia me fornecido uma gaveta para que eu guardasse minhas coisas. Garanto de retirar tudo que estava na gaveta. A casa da minha tia tinha apenas dois cômodos, seu quarto e a sala + cozinha. Era muito fácil garantir que eu não estaria esquecendo nada.

Na sexta-feira à noite, separo minha roupa de viagem e cuido de guardar todos meus pertences restantes, e faço mais uma vistoria para ver se não há nada meu restando. Checo as duas caixas que havia trazido, checo o chão no seu quarto, na sala, e tudo parece que já foi guardado realmente.

Havia colocado para despertar às 7 horas para que eu saísse às 8 horas, mas às 6:30 já estava de pé. Pego minha tia saindo de casa, quando ela está indo nos despedimos e ela me dá uma nota de 50 reais, diz que é pro meu Uber, eu digo que não precisa, e ela pergunta se eu iria negar uma gentileza da sua tia, com um ton de brabeza, então eu aceito o dinheiro. Tomo café, garanto que a cozinha estivesse arrumada, tomo meu banho, me arrumo, coloco a roupa que dormi e os itens de higiene pessoal na mala. Faço mais uma vistoria para ver se não estou esquecendo nada. Olho mais uma vez as duas caixas que estavam no quarto da minha tia.

Coloco minhas coisas do lado de fora do apartamento, checo mais uma vez o interior para ver se nenhum pertence meu ainda estava por lá, e chamo o Uber para o aeroporto.

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