Diario de um ApocalipseDoor Ed Angelis
A empresa
Estou em São Paulo para o primeiro dia de trabalho. Num período de menos de 15 dias, recebi a proposta e viajei mais de 3 mil quilômetros para começar no meu novo emprego.
Chegando aqui, fiquei feliz de ver a estrutura: a empresa tinha mais de 50 funcionários, parecia ser bem estruturada e gerida de forma bem profissional.
Passei a manhã do meu primeiro dia com a mulher do RH lendo contratos e normas e sendo apresentado à dinâmica da empresa.
Na parte da tarde, conheci meu colega de time, um desenvolvedor júnior, fomos almoçar juntos.
No almoço, ele me conta alguns detalhes sobre a empresa. Me causa surpresa a forma negativa como ele fala dela.
Ele fala de alguns desenvolvedores que passaram por lá; talvez algum deles fossem os donos daqueles comentários que vi na internet.
Esse meu novo colega de trabalho parece nem gostar da empresa e nem sequer de trabalhar como desenvolvedor, o que me faz pensar que ele também não deverá durar muito lá.
Trabalhando com ele, descubro que o nível técnico dele é realmente muito baixo e que realmente ele meio que caiu de paraquedas ali, e não tem nem um pouco o perfil de um desenvolvedor que goste do que faz.
Dois dias depois, conheço o outro integrante do time, outro menino bem novo que também não tem um perfil técnico e que parece ter caído de paraquedas em um time de desenvolvimento.
Além do perfil não técnico, a dinâmica de trabalho deles me chama muita atenção: durante todo o dia, conversas e brincadeiras que me lembravam muito o ambiente de um colégio.
Um dia, um funcionário de outro setor avisa que precisa instalar um antivírus no meu computador. Ele passa horas enrolado instalando esse antivírus.
Assisto ele tentando fazer a tarefa enquanto recebe instruções de um amigo pelo WhatsApp. Uma tarefa bem boba, que eu mesmo poderia ter realizado, mas já que aquela era a função dele não quis me intrometer.
Descubro que ele era motoboy antes de trabalhar ali. Isso não significa muito, já que eu era mergulhador e fiz Uber antes de entrar para o desenvolvimento.
Mas era mais um que não tinha muito o perfil do serviço para o qual foi contratado naquela empresa.
Não havia nenhum caso como o meu lá. Todos os funcionários já eram de São Paulo, nenhum veio de longe como eu.
Já na primeira semana, o gerente de projetos me passava tarefas bem avançadas sem dar a devida introdução ao sistema. Considerei aquilo como uma fase de testes, e com muito orgulho ia entregando minhas tarefas.
Enquanto que na segunda semana de trabalho, já estava lidando com tarefas que mexiam com a estrutura e segurança do sistema. Meu colega, que já estava lá há 1 ano, fazia tarefas de renomeação de tabelas e redesenho de layout.
E tudo ficou bem estranho quando esse gerente começou a me excluir das reuniões: ainda na segunda semana, ele chamava os dois membros do time e me deixava de fora.
As tarefas continuaram vindo com muita pouca informação e confusas, e qualquer dúvida que buscava vinha com bastante má vontade, mas tudo era entregue.
Até que, em uma semana de muito frio em São Paulo, eu adoeci e atrasei uma tarefa, e obviamente não fui perdoado.
Na última reunião da semana, os dois desenvolvedores, junto com o gerente, não cansaram de martelar como os atrasos tinham afetado todo o andamento e gerado prejuízos inimagináveis, tudo aos olhos do dono, que nunca participava das reuniões, mas ali ele estava.
Achei tudo um exagero e uma encenação para me deixar com más impressões, não sei se para o dono, ou para os outros funcionários da empresa.
Um dia vou pro trabalho ainda um pouco ruim, e saio 1 hora antes do fim do dia por estar passando mal.
Ainda no ônibus, recebo a mensagem da moça do RH informando que não precisaria mais ir, que eles estavam me dispensando.
45 dias foi meu tempo de serviço, o contrato previa 90 dias de tempo de experiência.
Não quero afirmar que minha contratação e minha dispensa tenham ligação com aquela rede de que tenho falado. Possa ser que tenha apenas sido algo no âmbito da empresa.
Mas as condições em que se deu minha contratação, o fato de ser o único funcionário que veio de longe, o perfil dos funcionários não condizentes com os cargos que tinham, o tratamento de frieza que tiveram na hora de me mandar embora, tudo me deixa com muitas questões.
Quando fui mandado embora, estava morando com uma moça que havia conhecido em um centro budista, e não tinha a pretensão de ir embora de São Paulo ainda.
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