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Memórias perdidas da infância

Neste momento eu estava em uma espiral de ansiedade em que eu nunca havia estado, mesmo quando tudo ao meu redor favorecia para eu estar bem. Eu me senti realmente hackeado, como se tivessem plantado um botão em mim, que eles ligavam e desligavam a hora que quisessem.

Eu já havia feito duas consultas com psicólogas e nada adiantou. Eu não parava de remoer o passado, do mais recente até o mais longínquo, para tentar entender o que estava acontecendo. E fazendo essa regressão, eu percebi que eu esbarrei numa parede: eu notei que dos 7 anos para trás eu não tinha absolutamente nenhuma lembrança, nada de antes de eu ter chegado em Campina Grande com 7 anos de idade.

Antes disso, só havia algumas lembranças dos jardins, das árvores e plantas do quintal das casas, nenhuma lembrança do interior das casas, nenhuma lembrança de interação com alguém, nenhuma lembrança da praia, ou outros lugares visitados. E mesmo dos jardins, a única lembrança muito vivida é de uma árvore, que eu adorava subir.

Escavando essas lembranças de infância, eu lembrei de uma, de uma surra que levei de minha mãe. Eu devia tá com uns 11 anos de idade. Estávamos passando um final de semana com toda a família na casa de praia da minha avó.

Eu saí com meus primos para dar uma volta na cidade. Quando retornei, minha mãe me puxou para um canto fora da casa e começou a me bater. Ela batia com as mãos nuas por todo o corpo.

Lembro de estar com muita raiva por estar levando aquela surra, pois não havia feito nada e não merecia apanhar. Lembro de enrijecer o corpo e pensar comigo mesmo: pelo menos ela não vai me ver chorar e nem implorar. E assim fiz, apenas mantinha o olhar pro vazio, com o semblante de raiva.

Quando a mão dela começou a doer, ela parou. Essa foi a única e última surra que lembro ter levado dela, mas duvido que tenha sido a primeira.

Tempos depois, flagrei ela dando uma surra no meu irmão mais velho. Ela agora batia nele com um cabo de vassoura, e ele sim chorava e esperneava pedindo por clemência. Ela só parou quando o cabo de vassoura quebrou.

Uma vez conversando com ela, recentemente, ela me contou que o pai dela, meu avô, batia nela sem nenhuma dó. Ela disse que apanhou muito por tentar defender sua mãe.

E eu fico me perguntando aonde foi parar esse senso de justiça, e por que ela passou para a criação de seus filhos aquilo de mal que ela havia sofrido com seu pai.

Será que é algum tipo de sadismo que se perpetua através do trauma?

Uma vez, na minha adolescência, saí com meu irmão mais velho e alguns amigos dele para a noite. Eu não devia ter mais que 15 anos. Eu provavelmente passei toda a noite querendo vir embora para casa, mas fui ficando.

Quando já era final de festa e éramos os últimos que ainda restavam, meu irmão estava muito embriagado.

Ele vê um mendigo ao longe catando latas de cerveja, vai até ele, para na frente dele, diz alguma coisa, e esmurra ele a sangue frio. Com apenas um soco, ele coloca o mendigo no chão totalmente inerte.

Ele volta com um sorriso de orelha a orelha, acariciando seu punho e dizendo que o mendigo havia pego alguma coisa dele. Aquela cena de violência pura e gratuita nunca saiu da minha mente, e talvez tenha sido ela que tenha motivado minha paranoia anos depois, naquele episódio também com ele.

Eu fui me convencendo novamente que o problema não era eu, ou pelo menos, não era eu apenas. Bati o pé e disse para mim mesmo que não iria me dobrar, que iria continuar mantendo a distância.

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