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Inicio do ano sabático

Volto de Brasília com a intenção de mais uma vez tentar fazer a casa de poker dar certo: faço alguns investimentos para melhorar o ambiente e volto a organizar os torneios diários.

Só que, novamente, me vejo sozinho — não acredito que meu irmão tenha desistido do negócio, então só posso crer que ele não está mais interessado na sociedade comigo.

Lembro de ter discutido com ele por alguma coisa, que não me recordo o que; lembro de estar dentro do carro dele indo para algum lugar e de pedir para ele parar o carro. Ele não para, e eu me jogo do carro em movimento; o carro não estava em velocidade, e não sofro nada. È estranho esse apagão, eu não lembro do contexto, eu só lembro do ato, bem provavel que eu estivesse embriagado nesse dia.

O negócio que iniciamos juntos era o último fio que me segurava, então agora era hora de partir.

Aproveitando o dinheiro do prêmio do torneio, compro uma moto, negocio minha saída da empresa que organizava os torneios estaduais que aconteciam trimestralmente em todo o estado.

E parto apenas com o primeiro destino na cabeça e nada mais, a cidade de Natal.

Alugo um apartamento próximo à praia mais turística da cidade, Vila de ponta negra; o apartamento ficava na parte mais pobre do bairro. Fiquei bem receoso com a segurança do local, mas foi o que eu consegui arrumar de última hora.

Um dia, andando pelas redondezas em busca de um mercadinho, entro em uma rua bem escura. Minha tensão aumenta; penso que podia ser assaltado a qualquer momento, e repenso se realmente foi uma boa ideia estar ali.

No auge da minha ansiedade, vejo dobrar a esquina e entrar na rua escura, vindo em minha direção, não um assaltante, mas um grupo de crianças, conversando e brincando, totalmente despreocupados.

Na mesma hora, sinto um misto de vergonha e culpa: vergonha por minha covardia, e culpa pelo meu preconceito — eu estava rodeado de famílias, e não de assaltantes.

Não demora, e fico bastante familiar com o lugar, frequentando mercadinhos, padarias, lanchonetes; e as pessoas vão se tornando mais familiares com o tempo.

O dinheiro que me restava não era suficiente para viajar pelo tanto de tempo que eu pretendia — queria passar pelo menos 1 ano viajando pelo país.

Então, pensei que poderia fazer um outro tipo de turismo, conhecendo as casas de poker locais: o poker já estava bastante difundido, e toda grande cidade já contava com pelo menos 1 casa de poker.

Então, além de conhecer os locais, poderia ganhar o dinheiro para financiar minha viagem.

Logo minha rotina se resumia a frequentar o clube de poker, beber em bares, e sair com meninas que conhecia por aplicativo de relacionamento. Os encontros casuais viraram uma rotina.

Havia conhecido uma estudante, que veio de outra cidade para fazer faculdade em Natal, muito simpática e bonita, que me levou para conhecer o seu apartamento.

Conversamos bastante, e lembro de voltar para casa de madrugada bem feliz pela ótima noite. Poderia ter sido um bom romance se eu ainda não estivesse tão quebrado e com a cabeça em outros planos.

Pouco tempo depois conheci uma mulher um pouco mais velha, que me pareceu um tanto neurótica. Quando paramos seu carro próximo a uma igreja, em um ponto que já conhecia e sabia que era seguro, seu nível de ansiedade era bem maior que o meu quando entrei naquela rua escura — ela não conseguia se concentrar e não parava de olhar para fora do carro procurando por perigos.

Então chamei ela para sairmos dali.

Ela compartilhou comigo um pouco de sua vida, que foi bem intensa, sexualmente falando, em um casamento aberto e cheio de experimentos sexuais bem impactantes.

Quando transávamos, ela de repente começou a imitar a voz de uma criança; tomei um susto e tive que me concentrar para não desanimar. Não gostei muito da experiência, e não nos vimos mais.

Em mais um encontro por aplicativo, encontrei uma menina que estava totalmente diferente das fotos do aplicativo, como se tivessem sido tiradas a muito tempo atrás.

Peguei ela na saída do seu curso e a deixei em casa; conversamos um pouco, e não nos vimos mais. Talvez tenha sido vítima de um pequeno golpe.

Um dia, caminhando na praia em um trecho bem deserto, topei com uma menina atraente.

Ela fala alguma gracinha para mim, falando qualquer coisa sobre ter gostado da minha aparência, e, pelo timbre da voz, percebo que é uma menina trans.

Eu retribuo o elogio, conversamos um pouco, trocamos contato e combinamos de nos encontrar à noite.

A pego na faculdade; ela se vestia muito bem, e não destoava em nada dos outros alunos. Também tivemos apenas mais uma noite casual.

Meu último encontro casual, foi com uma garota de programa, ela estava na praia com roupas bem chamativas e perguntou se eu não gostaria de sair com ela. Ela tinha pele bem preta, cabelos grandes bem lisos, rosto e nariz bem afinados, era uma moça muito bonita, aparentemente não alfabetizada. Durante nosso encontro ela contou para mim algumas coisas bem fortes, de coisas que ela já tinha vivido e visto, senti que ela falou como alguém que precisava colocar pra fora aquilo tudo, coisas que não saiam da sua mente. Esse encontro mexeu muito comigo, fiquei pensando que aquela menina foi empurrada para a prostituição devido a pobreza, e me senti mal de está me aproveitando de um sistema que gerou essas condições.

Percebi que minha rotina não estava muito mais saudavel de que a de antes, e ainda por cima estava bebendo bem mais, quase todos os dias.

Decidi parar com o poker, parar de beber e parar com os encontros casuais, e tentar encontrar coisas saudáveis para ocupar meu tempo.

Vou ao cinema um dia para tentar distrair a mente, mas não foi esse o efeito que teve. Enquanto aguardava na fila para comprar o ingresso, observava as pessoas — todas em casais ou em grupos de amigos — e eu estava sozinho numa cidade onde não tinha amigos de infância, amigos de colégio, nem familiares.

Senti um estado de solidão que nunca havia sentido, e aquele sentimento me deixou bem triste. Aquele abatimento foi crescendo, e, ao entrar na sala do cinema, eu estava com os olhos marejados.

Fui o primeiro a entrar, e até o momento ninguém tinha vindo em seguida; então, por algum momento, estive sozinho na sala do cinema. Naquele momento, as lágrimas começaram a escorrer dos olhos de forma incontrolável.

Caminhando ainda com os olhos molhados, achei minha fileira e me dirigi ao meu assento.

Percebi que todos os encostos de todos os assentos daquela fileira estavam abaixados, menos um, fui procurando meu lugar na fileira e vi que o assento que estava levantado era justamente o meu, eu dou uma olhada em volta e percebo que todos os assentos da sala de cinema também estavam com o encosto baixados — devia ser padrão deixar assim após inspeção entre uma sessão e outra — olho mais uma vez para meu assento levantado, e olho mais uma vez para todos os assentos do cinema baixados, e o sentimento de solidão se esvai totalmente, senti que alguém se compadeceu da minha solidão.

Após o filme, saí da sala muito mais tranquilo e otimista.

Na busca por atividades mais saudáveis, passei a frequentar a praia todos os dias cedo pela manhã, para nadar e praticar stand up paddle — algo parecido com andar de caiaque, mas de pé numa prancha.

Também voltei a frequentar a igreja aos domingos, e em uma dessas missas o padre anuncia o início de uma nova atividade: a oficina de orações, que iria acontecer todas as terças e quintas.

Achei que poderia ser uma boa oportunidade para socializar e tentar sair do isolamento, e foi muito bom — não apenas pela socialização, mas por exercitar o ato de Orar novamente.

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