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Preferiria estar louco

Quando parti para a África do Sul, fui com uma leve sensação de estar enlouquecendo, depois da minha passagem na casa dos meus pais, depois do convívio com todos ao meu redor, familiares e novos familiares, conhecidos antigos e conhecidos novos, depois de tudo que vivenciei e estou vivenciando. Eu só queria estar louco, mas não estou.

O mundo é quem está enlouquecendo. O mal foi plantado e está sendo cultivado, e o fruto que vai brotar não será muito bom.

A impressão que tenho é que não existe mais família e nem amigos: uma nova aliança foi formada, irmãos da mesma ideologia, ou ideologias.

Agora tudo são interesses e ideologias. Estão todos em um estado de guerra, e os inimigos são familiares, antigos amigos, vizinhos, soldados movidos por diferentes propósitos.

Na base estão os privilegiados economicamente, e racistas, que querem ter privilégios baseados na sua característica física, depois vêm os deslumbrados e qualquer um que possa ser manipulado, ou mesmo comprado.

Todo medo, todo ódio, toda fraqueza estão sendo explorados para dividir. Sinto uma nova espécie de supremacia nascendo, essa não mais justificada pelo sangue. Todos que puderem ter o ego inflado e servirem aos propósitos de seus senhores serão declarados superiores.

As ideologias não são a finalidade, são apenas o meio. O racismo, o machismo, a religião, qualquer sentimento de medo ou de raiva, tudo são instrumentos para dividir e conquistar, tudo são apenas ferramentas de manipulação. O manipulado não é o problema, o grande problema é o manipulador.

Vou explicar o mundo em uma pequena história: quando eu devia ter uns 10 anos, eu tinha um primo da mesma idade e uma prima bem mais criança, devia ter uns 4 ou 5 anos.

Meu tio havia dado uma cédula de dinheiro para minha prima. Meu primo, vendo minha prima com aquele dinheiro sem a menor noção do valor que ele tinha, propôs trocar aquela cédula por algumas moedas. Facilmente, ele convenceu ela a trocar a cédula pelas moedas.

Hoje o mundo se encontra da mesma forma. As pessoas estão entregando coisas valiosas demais para eles entenderem agora, pelo deslumbramento de algumas poucas moedas.

Não só uma, mas várias coisas imensamente valiosas estão sendo entregues. Mesmo sem notar, eles estão entregando sua liberdade, seu direito de ditar o rumo de sua vida, entregam a sua liberdade e de quebra a dos seus filhos.

Estão abrindo mão de parentes, em troca de uma promessa de fidelidade que vai se dissolver como vapor a qualquer momento. Estão simplesmente entregando sua alma.

Voltando à minha prima de 5 anos, o que eu poderia fazer naquela situação?

Não adiantaria eu explicar para ela que ela estava sendo enganada. Seria capaz do meu primo, com o dinheiro que ele pegou, comprar alguma coisa pra ela, e ainda sair de bonzinho, e ainda colocar na cabeça dela que eu era o mal, que estava querendo as moedas dela.

Seria um erro gastar energia explicando para ela, que ela estava sendo feita de boba, já que ela ainda não tinha capacidade de entender racionalmente as coisas, pois ainda sentia o mundo de forma puramente emocional.

A única coisa a ser feita é ir no meu primo e tirar o dinheiro das mãos dele, e entregar de volta à minha prima, ou ao pai dela.

O comportamento narcisista é semelhante em todas as esferas da sociedade, seja de um pai para um filho, de um irmão para o outro, de um patrão perverso para o empregado, seja de uma nação desenvolvida imperialista para uma subdesenvolvida: um pensamento une todos.

Porque deixar ele se desenvolver se posso escravizá-lo?

Posso tirar sua independência e liberdade, vou torná-lo frágil. Quando ele precisar de socorro, irei me apresentar como salvador, serei o herói, o generoso. Se eles não precisarem de ajuda, farei com que precisem, como uma máfia que gera a insegurança para vender proteção. Eles vão lhe fazer adoecer, empobrecer, irão lhe boicotar de todas as formas possíveis, tirar sua autoestima.

E todas essas técnicas estão sendo catalogadas e repassadas, uma escola de manipulação e coerção que não para de se expandir.

Me parece que a cada dia que passa eles se comportam mais e mais como um verdadeiro exército, com soldados, com uma inteligência, e uma rede de comunicação que abrange todo o território nacional e até internacional.

As pessoas precisam perder a inocência em achar que o problema hoje é o fascismo, o racismo, a misoginia, a homofobia. Talvez o homem sempre verá os outros como diferentes, como ameaça.

A briga por conscientização deve ser ativa em momentos de paz.

Agora deveríamos focar no grande inimigo, que é quem está instrumentalizando tudo isso para jogar uns contra os outros.

O fascismo não cresceu nos últimos tempos. A questão é que foram dados poderes suficientes para alguém usar isso como ferramenta, mobilizando e manipulando milhões ou bilhões de pessoas.

Então, o problema na verdade é o poder acumulado nas mãos de poucos, que permite essa manipulação e instrumentalização dos sentimentos de todos.

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