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Espírito Santo

Eu já não tinha tanta alegria no jogo, e também não tinha nenhuma contrapartida na vida pessoal. Jogar estava se tornando um fardo.

Estava numa espiral negativa crescente, com o emocional bem frágil; precisava dar um tempo. Foi então que veio o convite para ser patrocinado: alguém iria pagar as inscrições dos meus torneios, e iríamos dividir o lucro.

Apesar de jogar apenas por parte do prêmio, não ter perdas e riscos iria ser bom e iria me manter jogando os maiores torneios.

O investidor estava montando um time de poker, que iria ter um escritório e sede no estado do Espírito Santo, a 3 mil km de distância de onde eu morava, e eu teria que me mudar para lá.

Achei a possibilidade de mudança muito boa; talvez isso desse um reset na mente. Então, mandei todos os meus móveis para minha cidade natal, coloquei aquilo de que eu não queria me desfazer dentro do carro e parti para o Espírito Santo.

Era uma viagem prevista de 2 dias e meio, mas que levou 5 dias, devido a problemas no carro.

Em um momento da viagem, tive a maior sensação de perigo e de proximidade da morte da minha vida.

Estava na estrada durante uma chuva muito pesada, com a noite chegando, e com o vidro do carro embaçando muito; o tráfego era intenso. Encostar o carro não era uma opção, pois o acostamento era bem estreito e seria bem mais perigoso; então, teria que me manter na pista, mesmo com quase zero de visibilidade.

Eu não olhava mais para frente; eu olhava apenas para a faixa amarela no meio da pista e me guiava apenas pelo pouco que conseguia enxergar dela. Por muitos momentos, nem essa faixa eu enxergava mais.

A agonia durou uma eternidade até eu finalmente chegar em um posto onde encostei o carro.

Depois de 5 dias na estrada, cheguei na sede do time de poker no Espírito Santo: era um apartamento de luxo de frente para o mar, na praia mais badalada de Vila Velha, segunda maior cidade do Espírito Santo e vizinha da capital, Vitória. O apartamento era gigantesco e tomava todo o andar do prédio.

Nunca tinha visto algo tão luxuoso, apesar do interior do apartamento estar quase vazio. Lá já moravam 3 integrantes do time, cada um vindo de uma região diferente do país.

Logo de cara, consegui bons resultados e ganhei o respeito dos outros membros do time. Apesar do bom início, não consegui ter o reset da mente que eu estava esperando.

Apesar do ótimo local, da camaradagem dos outros integrantes, do apartamento de luxo, da praia linda, das mulheres lindas — apesar de tudo, eu me sentia muito deslocado ainda. Não consegui me sentir relaxado e confortavel em quase nenhum momento, talvez o tempo de isolamento tivesse feito eu perder a capacidade de socializar e de me sentir a vontade na presença de outros.

Depois de 1 mês e pouco, sentindo que meu estado mental só tendia a piorar, e aproveitando meu bom início, propus ao dono do time de continuar no time, mas retornar para minha cidade e continuar jogando de lá. Eu devo ter passado bastante confiança, ele aceitou sem problemas.

Mais uma vez, coloquei minhas tralhas no carro — nem tinha tirado a maioria das coisas, na verdade — e voltei para minha cidade: mais 3 dias de viagem, e estava de volta à casa dos meus pais, a casa barulhenta do centro.

Continuei jogando pelo time por um tempo, mas as coisas não foram muito bem, e jogar estava ficando uma atividade cada vez mais insatisfatória. Foi então que achei melhor sair do time antes de causar prejuízos grandes.

Simplesmente não conseguia jogar mais. A excitação do jogo tinha desaparecido totalmente, e estar na frente do computador jogando tinha se tornado um fardo insustentável.

Foi então que chamei meu irmão para organizarmos um torneio de poker, aproveitando que o jogo não parava de crescer, e a cada dia estava saindo mais e mais das sombras para se tornar uma atividade cada vez mais comum.

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