Diario de um ApocalipseEd Angelis 著
O Poker
Conheci o poker quando criança através dos filmes. Lembro de jogar com meus primos depois de assistir a um filme. Lembro que eu tinha pego o espírito do jogo já, e ganhei facilmente deles.
Muitos anos mais tarde, o ano é 2006. A internet, que nos anos 90 ainda era uma novidade para a maioria, agora já faz parte do cotidiano das pessoas.
Até meu pai já brincava de jogar jogos de baralho e gamão online contra outras pessoas. Vendo ele jogar, me perguntei se não conseguiria jogar poker online também. E descubro que o poker online já estava muito difundido, com milhões de jogadores ao redor do mundo, jogando valendo dinheiro real.
Eu sempre tive a impressão de que poker era um jogo onde a habilidade prevalecia sobre a sorte, e pesquisei na internet se existiam jogadores profissionais que viviam dessa atividade. Descobri muitas personalidades e, junto disso, muito material ensinando como se tornar um jogador vencedor no poker, ensinando toda matemática e psicologia envolvida no jogo.
Recém-desempregado, achei que era válida a tentativa. Eu tinha certeza de que poderia ser bom o suficiente. O poker me permitiria não apenas sobreviver, mas me daria a possibilidade de ganhar minha liberdade.
Eu sempre quis rodar o mundo. Por mim mesmo, eu só colocaria uma mochila nas costas e partiria, mas estávamos vivendo uma situação bem difícil dentro de casa, e sem perspectiva nenhuma das coisas melhorarem.
O poker me pareceu o caminho mais rápido, não só para eu conseguir ajudar minha família, mas conseguir realizar meu sonho junto.
Então o plano era ganhar dinheiro, garantir que meus pais não passassem necessidades, e partir conhecer o mundo. Mas eu estava falido e sem dinheiro algum para jogar, como iria fazer? No começo, brigava para ganhar centavos, e assim foi por muito tempo. O primeiro ano foi um inferno total.
Não bastasse a dificuldade do jogo, tinha que enfrentar a descrença e julgamentos dos outros, as falações pelas costas. O distanciamento social foi muito difícil; enquanto via todo mundo saindo para festas nos finais de semana, eu permanecia trancado em casa jogando e estudando, mas isso foi uma escolha que fiz, e sabia que esse sacrifício era para colher os frutos mais à frente.
E assim foi acontecendo: os centavos foram ganhando volume e se tornando quantias mais consideráveis.
Lembro da primeira vez que fui sacar no banco um dinheiro retirado de um site de poker: pela primeira vez, podia ver aquelas centenas de horas de jogo e estudo se materializando em um retorno real.
Com esse primeiro saque, cuidei de comprar um novo PC — o que estava usando mal dava para abrir 2 mesas de poker sem ele travar tudo. Mas meu pai protestou sobre minha compra; ele achava que eu deveria usar o dinheiro para ajudar dentro de casa. Aquela atitude me encheu de fúria.
Antes de ficar desempregado, eu estava trabalhando para ele, e trabalhei 1 ano sem receber nenhum salário. E agora quando tinha uma perspectiva, ele estava criando obstáculos. Ele tinha uma mãe e muitos irmãos com condições para ajudar ele financeiramente. Aquela cobrança me deixou com muita raiva. E os conflitos em volta só aumentavam.
Um dia, após ter que jogar até tarde, fui dormir quase ao nascer do sol, e sou acordado ainda cedo pela manhã com batidas fortes na parede do meu quarto: era meu pai pregando um prego bem ali. Levanto, pergunto se ele não poderia fazer aquilo depois que eu acordasse. Ele resmunga algo e sai. Eu tento voltar a dormir, mas não consigo, e passo o dia em claro, como num efeito de jet lag; iria demorar dias até eu ter uma boa noite de sono novamente.
As coisas estavam demorando muito a acontecer, e já estava chegando ao meu limite. A fadiga de tantas horas de jogo e sonos mal dormidos estava começando a cobrar seu preço, o sacrifício do isolamento também já estava começando a ficar pesado demais. Já pensava em desistir, em procurar um emprego comum, qualquer coisa onde eu conseguisse fazer dinheiro suficiente pelo menos para que eu conseguisse me divertir um pouco. Mas então aconteceu a virada.
Em uma série de torneios classificatórios no maior site de poker da época, eu ganhei o direito de ir disputar um torneio por equipes em Bariloche, na Argentina — iria disputar o primeiro torneio Latino-Americano de Poker por equipes.
Minha mãe e irmão mais novo vão me deixar no aeroporto, ainda meio incrédulos que aquilo era verdade, que eu estava saindo direto das profundezas da escuridão do meu quarto, onde estive por mais de 1 ano, para um avião que me levaria a Bariloche.
Não bastasse a viagem incrível, voltei de lá com o troféu de campeão e com o prêmio de 20 mil dólares. Esse valor prometia transformar minha vida, pois agora poderia jogar por quantias bem maiores e fazer bem mais dinheiro.
O dinheiro teria sido bem melhor aproveitado se não fosse o imenso buraco emocional deixado por todo aquele tempo de desgaste familiar e isolamento social. Os desgastes familiares continuaram, e eu, em vez de tirar um período de férias, resolvi voltar direto para as mesas — não via a hora de jogar por dinheiro de verdade. Mas aquilo foi um grande erro.
Um dia, escutando minha mãe falando alto ao telefone, como que querendo que eu ouvisse, ela falou para minha tia que eu estava tendo sorte até ali, mas que a maré uma hora iria virar.
Depois de tanto tempo de descrença, achei que as coisas, pelo menos com relação a isso, iriam mudar, e eu teria mais apoio. Depois de alguns desentendimentos com meu irmão mais velho, e somados à fadiga do jogo, achei que aquele ambiente tinha se tornado insalubre demais.
Eu continuava trancado em casa, vendo todos ao meu redor tendo uma vida normal, saindo para se divertir. Naquele ambiente de conflitos e isolamento, eu não conseguiria focar no jogo. Então, resolvi mudar para algum lugar onde eu pudesse ter tranquilidade e que me desse um respiro emocional.
Mudei para a capital João Pessoa, a mesma cidade onde passei meus primeiros anos da infância. Havia trocado o centro barulhento da minha cidade pela proximidade do mar.
Agora em um novo ambiente, cuidando mais da saúde, com caminhadas todo fim de tarde, tinha certeza de que as coisas iriam começar a acontecer rápido. Meu grande objetivo com o poker era estar entre os maiores jogadores e correr o circuito disputando os maiores torneios pelo mundo. Aquele sonho de viajar o mundo em um veleiro havia se transmutado: agora o veleiro tinha se transformado em uma mesa de poker.
Mas, infelizmente, as coisas não estavam acontecendo de forma nenhuma; na verdade, ao contrário, eu estava sofrendo muitas perdas constantes. Ao subir de nível, eu me dei conta, da pior maneira, de que o nível dos jogadores também subia, tornando o jogo ainda mais difícil.
O isolamento também continuava e não me ajudava em nada, mas não conseguia sair desse ciclo. Por ora, eu só focava no meu principal objetivo.
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