Diario de um ApocalipseEd Angelis 著
Acontecimentos em cadeia
Era 03 de novembro de 2014. Depois de ir dormir quase de manhã, após uma noitada na casa de poker, sou acordado por uma chamada no meu telefone. Acordo e atendo ainda muito grogue: a pessoa do outro lado fala que é representante de um site de poker e que estavam dando um bônus de 50 dólares para novos jogadores.
Era um tipo de promoção bem comum em sites de poker; o que não era comum era eles ligarem para os jogadores. Na hora, estava tão grogue que nem dei muita importância para isso.
Ele perguntou se eu tinha interesse na promoção; disse que sim. Ele disse que iriam enviar um código para meu celular para fazer a confirmação e autorizar o depósito do bônus na minha conta. O código chegou, eu passei para ele.
Não sabia ainda, mas tinha acabado de cair em um golpe, que só iria descobrir bem depois. Desliguei o telefone e voltei a dormir.
Para completar a falta de sorte, meu irmão me manda mensagem logo depois que acordo, me chamando para ir comemorar o aniversário de sua esposa. Saímos para um restaurante bem conhecido da cidade; volto mais uma vez tarde da noite e agora bem embriagado.
Durmo praticamente todo o dia e só levanto final da tarde; como algo e decido registrar em algum torneio online. Mas, ao tentar acessar os sites de poker, descubro que todas minhas contas foram hackeadas.
Aquele código que havia enviado por telefone, na verdade, era um código de redefinição de senha do meu e-mail; assim, eles puderam redefinir a senha do meu e-mail e ter acesso a ele. Com o acesso ao meu e-mail, eles puderam redefinir as senhas de todos os meus sites de poker e também a do banco online que utilizava para realizar os saques. Ainda acessaram minhas redes sociais, que utilizaram para pedir dinheiro emprestado a uma pessoa conhecida, e levaram todos os meus dólares restantes.
Estava devastado. O restinho de ânimo que eu tinha em jogar online foi embora junto com meus últimos dólares. Me flagelava por ter sido tão estúpido de ter fornecido o código aos golpistas; lastimava minha falta de sorte de ter saído para beber justamente naquele dia.
Algum tempo depois desde o golpe, eu estava dormindo, quando escuto muito barulho do lado de fora do meu quarto, na sala e na cozinha. Os barulhos não cessam, e saio para ver o que estava acontecendo.
Dou de cara com dois homens que nunca tinha visto — eles estavam assaltando a casa. Estava sem meus óculos, então sequer pude identificar suas fisionomias por completo, mas eles pareciam ser bem jovens.
Eles pedem para que eu retorne para meu quarto. Vou em direção a meu quarto e lembro do meu notebook, que estava bem em cima da cama. Ao entrar no quarto, viro novamente para eles e deixo a porta apenas entreaberta, e tampo a visão deles com meu braço, para que não vejam meu notebook. Ele diz para eu fechar e não sair.
Não demora muito, e percebo que foram embora. Então, saio do quarto e dou uma olhada em volta para ver o que levaram. Por sorte, não quiseram entrar no meu quarto.
Percebo que levaram um computador velho — aquele mesmo que utilizava para jogar no início, que há anos estava ali encostado — e também um videogame que meu irmão mais novo tinha trazido há pouco tempo, que devia estar quebrado.
Vou até a porta da frente para entender como eles entraram e não noto sinais de arrombamento. Minha mãe tinha saído, e, ao sair, não havia passado a chave, deixando a porta praticamente entreaberta — um desleixo que me custou um baita susto.
De certo, uma das piores sensações que alguém pode sentir é ter sua casa invadida: a sensação de segurança se esvai completamente, e nunca mais nos sentimos tão seguros assim dentro de casa.
Fico aliviado de não terem levado meu notebook e de minha mãe não estar presente. Ela havia saído há pouco tempo para fazer algo na rua.
Os acontecimentos iam se somando, e minha fragilidade aumentando: ansiedade crescente, dificuldade de dormir, incapacidade de concentração. Foi quando comecei a me automedicar.
Comecei tomando uma dose bem fraca de um ansiolítico pego emprestado da minha mãe, apenas para tentar dormir melhor, pois estava dormindo 2 ou no máximo 3 horas por dia. No início, a medicação funcionou: apesar de não me sentir revigorado como numa boa noite de sono, estava dormindo bem mais.
Mas a medicação não era suficiente para o que ainda estava por vir: meu irmão mais velho, brigado com a esposa, volta a morar conosco. E continuamente ele chegava no raiar do dia embriagado, e pondo som alto; eu, como sempre, continuava dormindo tarde, e poucas horas depois de conseguir pegar no sono era acordado pelo som alto e outros barulhos que meu irmão causava.
Quase sempre, eu tentava colocar o fone de ouvido e tentava voltar a dormir com o som estridente aos ouvidos; na primeira vez funcionou, mas depois não mais.
Uma vez, saio do quarto e pedi que ele baixasse um pouco o volume; ele baixou. Volto a tentar dormir, mas pouco tempo depois ele volta a subir o volume do som.
Saio furioso do quarto, grito alguma coisa e peço para ele desligar o som; ele desliga. Volto para o meu quarto, mas agora, com o sangue fervendo, é impossível conseguir pegar no sono, e passo mais um dia em claro.
Mas o pior dia ainda estava por vir.
Estou no meu quarto dormindo com minha namorada, quando escuto meu irmão chegar em casa, mais uma vez, nos primeiros raios de sol do dia. A ansiedade já começa a me corroer; fico na expectativa, aguardando ele colocar o som alto. Mas os minutos vão passando e nada acontece; começo a ficar aliviado — talvez, finalmente, ele irá ter um pouco de respeito.
Quando estou tentando voltar a pegar no sono, escuto um telefone tocando; percebo logo que é o telefone de minha namorada. Ao pegar ele, vejo na tela, escrito: Chamada Irmão de Ed.
Para mim, aquilo tinha sido um grande limite sendo ultrapassado. Levanto de um pulo da cama, saio do quarto e vou até ele.
Já tinha ultrapassado o limite da raiva, então, dessa vez, não gritei — estava com muito medo de perder o controle. Então, perguntei em voz baixa, mostrando o celular a ele: O que é isso?
Ele parecia estar num estado de embriaguez acima do normal; balbuciando, mal conseguindo articular as palavras, ele disse que queria pedir um cigarro emprestado.
Sequer valia a pena repreender alguém naquele estado. Minhas opções eram bater nele ou retornar para meu quarto, e é isso que faço, decidido a cortar qualquer relação com ele.
As coisas não param de piorar. Com o clube e os torneios diarios indo mal, e o poker online se tornando inviavel, inicio os planos para montar uma serigrafia com um antigo colega de Lan House.
Saímos para comemorar a parceria. Fomos para um bar conhecido da cidade. Lá, encontramos outros amigos em comum. Eu fico muito embriagado e saio no carro totalmente fora de mim, pondo a minha vida e a de outros em risco.
Eu passo reto numa curva após tentar fazê-la em alta velocidade; o carro para em cima de uma praça pública. O carro não volta a funcionar, e noto uma poça de óleo embaixo dele. Sem condições nenhum de lhe dá com o problema naquele estado, eu só vou pra casa e deixo o carro ali, do jeito que estava.
Assim que acordo, vou até o carro, e ele não está mais lá — ele havia sido guinchado pelo departamento de trânsito. Consigo liberação dele após pagamento da multa, levo para uma oficina e descubro que o prejuízo é alto demais para que eu conseguisse pagar.
Vendo o carro do jeito que ele estava, por um valor muito abaixo do justo — eu só queria me livrar de mais esse problema.
A medicação em doses baixas agora não faziam mais efeito; eu seguia noites e noites em claro. Eu agora tinha 2 opções: ou aumentava a dose ou partia para medicação mais pesada.
Era uma opção que iria evitar ao máximo — não estava disposto a ficar dependente de uma medicação, Acreditava, que quanto mais tempo usando e quanto maiores as doses, mais as chances deles deformarem o funcionamento do meu cerebro a um ponto irreversivel. Então, antes disso acontecer, iria fazer o possível para ter uma noite de sono saudável sem depender de medicação.
Fato é que os dias iam passando onde eu só conseguia dormir no máximo 2 ou 3 horas por noite, então os efeitos de privação do sono começaram a aparecer.
Primeiro, eu tive uma alucinação auditiva: enquanto dormia num sono bem superficial, escutei o barulho bem alto de um acidente de carro. Corro para a janela que dava para rua e não vejo acidente nenhum.
Também tinha escutado uma pessoa chamando meu nome, mas, quando saí do meu quarto, não tinha ninguém em casa. O evento mais preocupante foi um surto paranoico.
Estava no meu quarto; era madrugada, mas o sono ainda não tinha chegado. Escuto a voz do meu irmão na rua; olho pela janela do meu quarto, que dá para a rua e para a entrada do prédio, e vejo ele entrar com uma mulher.
Escuto ele entrar dentro de casa e, logo após, entrar no quarto onde ele dormia, que era vizinho de parede do meu quarto. Escuto uma pancada bem forte, e depois, algo caindo no chão, como que alguém caindo.
Foi quando o surto aconteceu: eu tinha certeza que ele havia matado alguém e agora ele viria atrás de mim.
Abro a janela do meu quarto que dá para rua e, desesperadamente, aceno para o vigia que estava na esquina. Peço para ele vir, jogo a chave do portão e peço para que ele suba para me ajudar. Ele pega a chave e entra no prédio.
Então, abro a porta do meu quarto para ir abrir a porta da frente para o vigia. Quase no mesmo instante, meu irmão abre a porta do quarto dele, que era colada à minha — ele está embriagado como sempre, e me recebe com um estranho sorriso.
Até hoje me pergunto se os barulhos foram realmente reais ou mais alguma alucinação; se foram, percebo que era mais uma tentativa dele me provocar, de brincar com minha paciência. Ao vê-lo, o surto se dissipa.
Vou até a porta da frente, peço desculpa ao vigia, digo que está tudo bem e volto para passar mais uma noite em claro.
O desespero para conseguir uma noite de descanso vai aumentando. Numa tentativa desesperada, e sem nenhum ansiolitico a disposição, eu apelo para rémedios comuns para dores de cabeça: comecei tomando 2 comprimidos, e não conseguindo dormir, depois de 30 minutos tomei mais 2 e fui para uma nova tentativa; depois de 30 minutos, voltei e tomei o restante da cartela, totalizando 10 comprimidos.
Eu apaguei depois de ter tomado a cartela inteira, e acordei um tempo depois, não faço ideia de quanto tempo depois, totalmente dopado. Vou até a cozinha bem lentamente, com medo de cair, e depois volto para cama, com uma leve sensação de que se eu voltasse a dormir, talvez não acordasse mais — mas, para mim, isso nem me causava tanto medo; o importante era dormir, após deitar apago rapidamente de novo.
Ao acordar, percebo que preciso fazer algo, mas não faço ideia do quê.
Devido a minha debilidade, não estava conseguindo participar e contribuir na organização dos torneios de poker, e me desgasto com os outros sócios; também não tenho cabeça para seguir com o projeto da serigrafia, e também não estava dando conta de manter o relacionamento.
Eu precisava ter um pouco de paz e pensar com clareza sobre como sair daquele estado.
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