Diario de um ApocalipseDe Ed Angelis
Paranoia
Eu estava ficando doente constantemente, a cada 2 semanas pelo menos eu adoecia, sempre com sintomas de resfriado e infecção na garganta. Comecei a prestar mais atenção na minha alimentação: sempre requentava bem a comida, não comia frutas que já estavam abertas. Alguns comportamentos do meu pai nada higienicos me chamaram a atenção, como quando ele comprou uma melancia, partiu ela no meio e colocou na geladeira, sem proteção e sem retirar nenhum pedaço, só deixou ela lá. Os dias foram se passando, e a melancia continuou lá sem ninguém comê-la. Em outra ocasião, peguei ele transferindo o queijo recém-chegado do supermercado, fatia a fatia, com as mãos nuas, para um pote de plástico. Outra vez, chegando tarde da noite em casa, comi um pedaço de uma pizza deixada na mesa de jantar. No outro dia, amanheci com a garganta ruim, mais outro dia e estava queimando de febre, e essas coisas só fizeram aumentar minha paranoia.
Ele também estava sempre trazendo biscoitos e bolos da rua, daqueles bem açucarados e de massa branca refinada, para mim que já tive problemas graves estomacais. Aquilo era um campo minado, e os biscoitos e bolos ficavam lá por semanas e até meses, e nem ele os consumia. Eu tinha começado a ter os mesmos problemas estomacais de antes, muito refluxo e azia, mesmo comendo muito pouco daqueles biscoitos e massas. Quando parei de comê-los completamente, os problemas estomacais sumiram.
E além dos ataques químicos e de germes, também comecei a reparar em ataques subliminares. Meu irmão mais velho sempre me mandava mensagens de bom dia pela manhã, junto com algum versículo da Bíblia. Por muito tempo, não dei muita bola para essas mensagens de bom dia, até que reparei que elas vinham em horários bem variados, e comecei a reparar que elas vinham sempre no instante que eu acordava, no máximo com poucos minutos de delay. E fiquei com aquilo na cabeça. Pensei que com acesso ao sistema de câmeras, ficava fácil saber que horas eu saía do quarto, já que uma das câmeras pegava a porta do meu quarto de frente, mas depois eu percebi que as mensagens vinham na hora que eu efetivamente acordava, mesmo que eu não saísse do quarto. Logo fiquei me perguntando se havia câmeras escondidas no quarto, ou microfones. Pensei até se não era a empregada que informava a hora em que eu acordava ao escutar algum barulho no meu quarto. Seria por isso os minutos gastos passando o pano na frente da porta do meu quarto?
E qual o intuito? Era minha principal pergunta: será que ele está tentando me passar uma mensagem, ou apenas fazer eu me sentir desconfortável? A última era a hipótese mais provável, considerando o histórico que tínhamos. Quando retornei para minha cidade, já vim preparado para que esse tipo de coisas ocorressem, só estava esperando quando e o que seriam dessa vez. As mensagens começaram a me incomodar cada vez mais e me gerar ansiedades, até que encontrei o gancho para fazer com que elas parassem.
Eu caminhava todos os dias em uma área arborizada perto de casa. Naquele dia, saí um pouco mais cedo que o usual, antes da chegada da menina, que chegava às 7 horas, e, ao voltar, parei em uma feirinha de frutas que ficava no caminho, como quase sempre fazia. Neste dia, avistei meu irmão mais velho de longe. Ele já estava na feirinha; ele morava ali bem próximo. Sem ele me ver, resolvi fingir que não tinha visto ele também, apenas para reparar qual seria seu comportamento. Estava lá fingindo escolher as frutas, e reparei ele vindo na minha direção. Ele fica na fila para pagar bem na minha frente, mas até agora não falou comigo. Ele paga, se despede de outra pessoa, e de outro amigo, e vai embora sem falar comigo. Eu vi com a visão periférica que ele ficou bem na minha frente. Me senti o homem invisível. Ao me aproximar da casa dos meus pais, percebo que ele está saindo de lá com seu carro. Corro em direção ao carro para falar com ele antes que ele vá embora. Abaixo minha cabeça na altura da janela do carro. Ele me recebe com um imenso sorriso. Pergunto a ele por que ele não falou comigo lá na feira de frutas. Ele disse que não me viu. Isso era impossível. Digo que ele me manda mensagem de bom dia todos os dias pela manhã com um versículo bíblico e não me dá um bom dia pessoalmente. Ele disse que não me viu novamente. Peço para ele parar de mandar mensagens de bom dia pela manhã. Ele diz que estou ficando doido, e alguma coisa me diz que o intuito era exatamente esse: me fazer sentir paranoico. Somado isso ao nosso histórico, decido que está na hora de acabar o faz de conta de que ainda poderíamos ser uma irmandade.
A briga com meu irmão foi um bom pretexto para pôr um fim naquele faz de contas, uma relação de faz de contas que apenas servia para ele tentar me atingir de alguma forma. Apesar de já esperar coisas desse tipo quando retornei, a situação me deixa um pouco irritado, e quando com raiva ou irado, a tendência é a imunidade cair, me deixando ainda mais suscetível a doenças. Cuido de meditar por alguns minutos para tentar restabelecer o estado normal. A meditação era um hábito que havia voltado a fazer parte da minha rotina há umas semanas.
Aproveito o episódio com o meu irmão e removo as duas câmeras internas: a da cozinha, e a da sala que dava para a porta do meu quarto. Meu outro irmão não gostou muito. Disse que as câmeras eram para proteção da nossa mãe. Decidi voltar a morar no apartamento onde cresci. Era o apartamento no prédio antigo no centro da cidade. Ele não gostou da ideia também. Disse para eu alugar outro lugar que ele pagaria. Eu disse que só sairia dali para nosso apartamento. Ele diz que vai falar com o menino que estava morando lá, mas que não sabia quando ele iria poder sair, e disse para que eu esquecesse dele dali por diante.
Estava certo na minha cabeça de estar sofrendo um ataque coordenado. A tentativa de gerar uma doença crônica, somada a doenças virais e infecciosas e a instabilidade emocional, pode ser uma combinação perigosa e muito destrutiva. Essa era a paranoia que vim confirmar se era real ou não. E toda essa combinação de fatores já teria acontecido antes, e me deixado muito debilitado, fisicamente e emocionalmente, mas dessa vez eu não iria duvidar mais de mim e da minha sanidade. Ficava cada vez mais claro que algo estava acontecendo no mundo, e encarei tudo aquilo como um reflexo, um sintoma de um mundo adoecendo.
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