Diario de um ApocalipseDe Ed Angelis
A Empregada
Quando vim morar com meus pais, havia uma senhora que ajudava nos serviços domésticos, uma senhora já na faixa dos seus 50 anos, que trabalhava lá desde que minha avó ainda era viva. Era alguém de origem humilde, o padrão de empregada doméstica de antigamente, com pouca escolaridade. Depois de 2 semanas que cheguei, essa senhora parou de ir, segundo minha mãe, por opção da própria. Com mais alguns dias, uma nova menina foi contratada, essa agora bem mais nova, na faixa dos seus 25 anos.
Ela era uma pessoa simpática, mas com alguns comportamentos que me deixavam intrigados.
Meu quarto ficava ao lado da sala, e comecei a notar que, sempre quando acordava de manhã, ela estava sempre fazendo a mesma tarefa, ou limpando a mesa da sala, ou passando o pano no chão em frente ao meu quarto. Eu acordava em horários bem variados, e isso começou a me incomodar um pouco. Com acesso ao sistema de câmeras no meu celular, após acordar mas antes de levantar e sair do quarto, comecei a observar a câmera que ficava na sala e pegava a porta do meu quarto bem de frente. Observei ela passando o pano na mesa da sala ao lado do meu quarto por minutos em uma mesa que já estava bem limpa, ou passando o pano no chão também na sala em frente ao meu quarto por bastante tempo. Talvez ela tinha pouco serviço para a sua carga horário, ou talvez tivesse me esperando, pensei.
Ela chegava pontualmente as 7 horas damanhã e saia pontualmente as 15 horas, no período que estiva lá, nunca vi ela comendo nada, ela nunca almoçou lá em vários meses que convivemos.
Ela não sabia cozinhar muito bem e uma de suas principais funções era fazer o almoço, então me perguntei como contrataram alguém sem experiência de cozinha se essa era a principal função.
Ela também varria a área da frente que ficava próxima ao meu quarto pelo menos duas vezes ao dia, levantando muita poeira que me provocava muitas crises de espirro, até que comecei a molhar a área da frente com a mangueira para evitar que a poeira subisse.
No mais, era com ela que tinha mais convivência por lá, e apesar desses pontos, ela era uma ótima companhia e sempre aberta a conversar. Sua estatura era o principal motivo de brincadeiras que fazia com ela. Ela era sempre muito espirituosa, e também se divertia.
Mas, apesar do carisma, os acontecimento e os motivos que levaram a sua escolha, ainda permeavam minha cabeça. Soltei umas piadas sobre política para sentir o clima dela. Ela parecia uma dessas pessoas que não ligava muito para política, mas mesmo assim mostrou aversão a Lula, de forma bem protocolar, repetindo as mesmas frases feitas de sempre, sem se aprofundar muito, muito mais como se aquela fosse uma opinião do meio que ela vive, do que uma opinião genuína.
Não me aprofundei mais com ela na política, pois tinha medo de perder a simpatia que tinha por ela. Eu já estava sufocado com toda aquela ideologia implantada na cabeça das pessoas, então nossas conversas continuaram em coisas banais e nas brincadeiras que fazia caçoando de sua estatura.
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