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Tudo de novo novamente

Já estava trabalhando novamente como desenvolvedor de software há uns meses, havia deixado a vila dos pescadores e estava em um ótimo condomínio ainda na praia do Francês. Era um condomínio muito charmoso e bonito. O condomínio tinha um grande gramado com uma grande árvore no meio e mais algumas plantas, e ao redor do jardim ficavam os apartamentos, 7 no total. Tinha mais gatos do que pessoas no condomínio: só uma moradora tinha 6 gatos, outra tinha 3 e outra mais 2 gatos. Duas das minhas vizinhas eram psicólogas. Rodeado de bichos e de plantas e com 2 psicólogas morando ao lado, imaginei que estava no lugar certo.

E estava realmente, estava muito feliz, trabalhando, indo à academia, todo final de tarde ia andar e nadar na praia, e estava tendo um pequeno relacionamento.

Meu contato com a família desde que fui para Noronha era muito pouco, e toda vez que conversava com um dos meus pais sempre ficava mal. Todos os contatos, parecia que eles seguiam sempre o mesmo roteiro: não demonstravam nenhum interesse em como eu realmente estava, não perguntavam sobre o trabalho, se eu estava namorando ou coisa do tipo. Eles falavam muito do que estava acontecendo lá, sempre contando algum fato relacionado aos meus irmãos, como falando da vez que eles tiveram em Maceió, e sempre no final insistiam em perguntar se eu estava bem ou precisando de dinheiro, mesmo sabendo que eu estava empregado e também que eu tinha recebido aquele dinheiro do exterior.

Aquilo foi me cansando e irritando, não só pelo conteúdo das conversas, mas era como se aquela sujeirinha que tava decantada desse uma remexida. E o contato foi diminuindo cada vez mais, e ao mesmo tempo eu ficava mal por não mandar notícias, mas aí tinha que escolher qual dos males era o menos pior.

Um dia caí em um podcast sobre pais narcisistas, e principalmente mães narcisistas, e eu fui vendo aquilo e percebendo que tudo se encaixava no comportamento de minha mãe.

Então todas aquelas coisas que ela dizia ou fazia que me deixavam mal, que supunha que poderiam ser apenas desleixo, falta de sensibilidade ou excesso de sensibilidade minha, podiam ser realmente intencionais e com a finalidade de me atingir.

Será que aquele dia que eu fui visitar eles na minha cidade, e ela me chamou para que eu pegasse algo no depósito de tralhas velhas, e vi os óculos de mergulho infantil que tinha dado para minhas sobrinhas, lá jogado, descartado junto com outros entulhos empoeirados, será que foi intencional para me atingir? Esse tipo de coisas e muitas outras foram voltando à mente. Se fosse dessa forma, aquelas ligações só serviam a ela como meio para me atingir de alguma forma. Aquilo foi entrando na minha cabeça e cada vez mais fazia mais sentido.

Uma raiva foi crescendo dentro de mim. Eu parei de entrar em contato.

Um dia, quando eu não estava muito bem, recebi uma mensagem de minha mãe com uma fotografia mostrando uma reunião familiar com todos e, claro, onde eu não estava. Aquilo me provocou muita raiva, e pedi para ela não me enviar mais mensagens.

Normalmente eu ficaria com remorso, mas na verdade senti alívio, parecia que tinha tirado um peso das costas, e fui aceitando que eu realmente estaria melhor assim, que era melhor aceitar que eu estava só, assim eu poderia seguir em frente e não morar mais no passado, para ser capaz de procurar um novo caminho que me trouxesse paz.

A empresa que eu trabalhava fechou e eu estava desempregado novamente. Fiquei chateado, mas eu estava bem. A rotina estava muito saudável.

Já estava há um tempo sem ter contato com minha família. Eu ficava me perguntando qual seria a próxima jogada, sim, porque comecei a pensar que tudo não passava de um jogo pra eles, e tinha a impressão de que eles não iam simplesmente me deixar em paz.

Um dia na academia tive a certeza de ter visto alguém da minha cidade, alguém com quem não tinha muita intimidade, era alguém que frequentava o clube do poker, mas não para jogar, era amigo de alguém que frequentava. É isso, pensei, mais uma vez eles estão querendo mostrar que estão por perto, de olho em mim, assim como acontecia lá no antigo condomínio, antes de eu partir para Noronha.

Algum tempo depois, recebi uma mensagem de minha mãe. Ela dizia estar no hospital, que teve um ataque cardíaco, que esteve na UTI, mas que agora já estava bem.

Aquilo chegou como uma bomba a mim. Fiquei sem reação na hora. Ficava me perguntando se ela seria capaz de inventar aquilo apenas para me atingir, será que afinal de contas eu quem era o errado.

Mas outra coisa também não me saía da cabeça: porque eu soube da notícia diretamente por ela, porque nenhum dos meus irmãos se dispôs a me mandar mensagem informando o que estava acontecendo, ou mesmo meu pai. Todas essas perguntas ficaram me martelando a cabeça incessantemente, aquilo tudo pareceu uma orquestração para me atingir de alguma forma.

Eu ficava remoendo o passado 24 horas por dia, para convencer a mim mesmo de que eu estava certo, e trazer todo o passado de volta me fez um mal gigantesco. Eu voltei ao estágio mental de 10 anos atrás, dormindo 1 ou 2 horas por dia. Relembrei tudo e até um pouco mais, coisas que estavam perdidas, escondidas na memória.

Agora o sentimento de raiva tomava conta de mim e percebi que aquilo estava me adoecendo muito. Eu precisava sair daquele redemoinho de pensamentos ruins e negativos, mas não sabia como.

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