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Minha Sobrinha

Minha grande alegria de retorno era a volta do contato com minha sobrinha. Ela estava com 10 anos quando cheguei. Sua presença alegrava meus dias, e acho que a minha um pouco os dela também. Como toda criança com bastante energia, ela demandava atenção constante, e eu tentava dar o máximo a ela. Adorávamos dar sustos um no outro, brincávamos de jogo da memória, montávamos quebra-cabeças e muitas brincadeiras com bola, e também ajudava nos seus estudos, principalmente inglês e matemática.

Uma coisa que me chamava bastante atenção era sua magreza e um claro atraso no desenvolvimento corporal. Sua prima, que tinha a mesma idade, parecia ser uns 3 anos mais velha. E realmente a sua rotina alimentar explicava isso: além de comer muito pouco, o que comia não tinha nenhum valor nutricional.

Ajudá-la nos estudos era um desafio. Devido ao excesso de tempo no celular, ela tinha uma grande dificuldade de concentração. Os pais e avós não pareciam dar a devida importância. Talvez não soubessem o quão prejudicial esse hábito era.

Eu tentava inventar brincadeiras para tornar o estudo mais divertido, e arrumava meios para satisfazer seu pequeno cérebro viciado em dopamina em prol dos estudos. Comprei um jogo de tabuada e acertei com ela que ela ganharia 10 centavos sempre que acertasse uma conta de tabuada e perderia 20 centavos toda vez que errasse. Também elaborava contas em um bloco de notas para ela resolver; se ela resolvesse todas as contas, ganhava uma unidade de seu doce favorito. Brincamos por uma semana, e ela se divertia bastante e estava aprendendo rapidamente.

O doce foi só o combustível inicial. Tinha certeza que, com o tempo, a própria satisfação de resolver os problemas seria motivação suficiente, e foi assim que aconteceu. Nos primeiros dias, com minha ajuda, ela resolvia tudo com muito pesar. Depois de alguns dias, eu via ela resolvendo os problemas sozinha, com uma concentração que nunca tinha visto nela.

Sua avó um dia me recriminou pelo método usado, dizendo que era errado eu oferecer prêmios. Realmente não deveria precisar usar de tal método, mas devido à concorrência desleal que as rede sociais proporcionavam, não via alternativa. O cerebrozinho dela já estava moldado daquela forma, depois de anos à frente do celular. Eu tinha que partir dali: com o cérebro já deformado daquela forma, os métodos tradicionais já não iriam conseguir atingir e prender sua atenção.

As redes sociais se utilizam dos métodos mais rasteiros possíveis para prender a atenção e até viciar as crianças. E, para fins benéficos, eu não poderia me utilizar dos artifícios que eu encontrei? Era preciso apelar pela sua atenção de alguma forma, e os prêmios eram um recurso passageiro até ela encontrar satisfação na própria resolução dos problemas. E me espantava também sua avó estando preocupada agora, já que ela não parecia dar a mínima para os estudos da neta até ali, já que nunca a vi colocando a neta para estudar ou ajudando em suas tarefas. Por que, que agora que ela estava estudando e aprendendo ela foi contra meus métodos? Parecia estar vivendo um déjà vu, de uma situação que tinha vivido um tempo atrás, com outra criança e outra avó.

Um dia, minha sobrinha chega da escola, trazida pela minha ex-cunhada, já que a filha, minha outra sobrinha, também estudava no mesmo colégio. Eu escuto minha ex-cunhada comentando que os pais estavam reclamando na escola que os professores estavam passando muita atividade para casa. Fiquei meio intrigado com o comentário. Ela disse que o excesso de atividades estava sobrecarregando os alunos e os pais. Fiquei meio confuso: aquilo parecia um desincentivo aos estudos.

Nos dias seguintes, minha sobrinha foi perdendo total interesse nas brincadeiras da tabuada e das contas, e toda vez que a chamava para brincar/estudar, ela inventava uma desculpa qualquer. Liguei imediatamente o desinteresse dela aos comentários da minha ex-cunhada e da minha mãe, que ela pôde ter escutado, e meu medo é que mais coisas tivessem sido plantadas em sua cabeça para criar nela essa aversão às minhas atividades matemáticas. Porque a mudança de comportamento foi nítida e drástica.

Ainda guardo o bloco de notas que utilizava para formular as contas que ela tinha que resolver, e é nítido, pela sua caligrafia, a má vontade com que ela tentava resolver após esse episódio com minha ex-cunhada.

E também logo depois, nossas brincadeiras e estudos chegaram a um fim, pois ela voltou a morar com a mãe. Ela abandonou a escola onde estudava no meio do ano e voltou para a pequena cidade onde a mãe morava, que ficava no entorno de minha cidade. Alguma coisa me diz que minha aproximação com ela teve alguma coisa a ver com sua mudança.

Apesar de perder minha companhia diária, tinha um lado positivo dela voltar a morar com a sua mãe. Estava ficando bem preocupado devido a seus hábitos alimentares. Ela sempre pulava almoço e janta para ir direto para algum biscoito açucarado, sem nenhuma intervenção da minha mãe. Vivendo com a mãe, poderia ser que a mãe cuidasse melhor de sua alimentação.

Eu também percebia que ela tinha sua noite de sono muito afetada, como dormia com a avó, que roncava bem alto e, para piorar, muitas vezes acordava aos gritos, que assustavam a mim, mesmo meu quarto sendo distante. Imagina minha sobrinha, que dormia ao lado da avó. Percebia que era uma dificuldade ela sair da cama antes das 11 horas da manhã nos finais de semana, e que devia estar afetando na escola, já que ela estudava pela manhã.

Seu avô também não era dos mais carinhosos e sensíveis. Uma vez, fez comentários depreciativos com relação a um fino buço que nascia nela. Ela era muito vaidosa, e percebi na hora o quão embaraçada minha sobrinha ficou.

Outra vez, inocentemente falando do desejo de se tornar veterinária, seu avô disse que ela teria que abrir os bichos e ver suas vísceras e órgãos. Esse detalhe poderia ser ocultado de uma criança de 10 anos. Por toda essa falta de carinho e descuido, imaginei que talvez o melhor lugar para ela fosse ao lado da mãe realmente.

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