Diario de um ApocalipseBy Ed Angelis
Fernando de Noronha
Os meses que se seguiram foram voltados para a academia, para os estudos e o envio de currículos.
Logo após as primeiras semanas na academia, notei uma melhora significativa na qualidade do meu sono.
Ainda tinha aquela leve sensação de estar sendo vigiado, com mensagens em momentos bem pontuais, mas já não ligava muito. Fui começando a entender que, se isto realmente estava acontecendo, eu não tinha controle sobre as ações dos outros. Eu precisava focar no que estava sob o meu controle, e me manter saudável e conseguir outro trabalho eram meus focos.
Então neste momento que eu estava nesse limbo, desempregado e cuidando da saúde, eu recebo um e-mail bem inesperado.
Naquela época em que eu estava terminando o curso de instrutor de mergulho e estava mandando currículos aos quatro cantos do país, algumas operadoras ficavam na Ilha de Fernando de Noronha. E desde que comecei a pensar em trabalhar com mergulho, foi sempre um grande sonho trabalhar em Fernando de Noronha.
E agora, muitos anos depois, uma dessas empresas me responde, dizendo que está com meu currículo, que eles estão com uma vaga para o trabalho de fotógrafo subaquático, e perguntam se eu tenho interesse.
Reflito um pouco sobre meu momento atual, desempregado, e com aquela sensação de estar sendo vigiado. Desaparecer um pouco podia ser um bom negócio, e de quebra eu realizo um sonho.
Então eu aceito o convite e começo meus preparativos para partir para Noronha.
Vendi toda minha mobília, e diminuí todos os meus pertences a 2 malas grandes, mais uma mochila grande com materiais de mergulho e uma mochila de notebook.
O voo para Fernando de Noronha partia de Recife. Fiquei alguns dias aguardando o dia do meu voo para Noronha, e aproveitei para fazer alguns exames médicos.
Desembarquei na ilha de Fernando de Noronha, um paraíso na terra, e por isso tem seu custo. De cara, percebi que seria muito caro viver lá.
Eu seria o cinegrafista dos mergulhos, e iria filmar o mergulho dos turistas que contratavam o serviço. Diferente dos outros mergulhos que praticava, onde era eu quem conduzia os turistas no mergulho, agora eu só filmava.
E os mergulhos eram incríveis: águas cristalinas, muitas tartarugas, muitas arraias, tubarões, cardumes de peixes de todas as cores possíveis, as praias incríveis.
Um dos meus sonhos seria ver um golfinho e, quem sabe, interagir com algum em um mergulho, mas descobri que isso era terminantemente proibido: dava prisão e tudo, e expulsão da ilha. Foi um banho de água fria enorme.
No primeiro dia que saí para uma operação, o barco quebrou bem na saída do porto. O que parecia um mal presságio se mostrou ser a maior sorte do mundo.
Depois de poucos minutos que a embarcação estava parada na saída do porto, um batalhão de golfinhos surge vindo em direção ao barco e passando por ele, eram centenas ou milhares de golfinhos.
Teria dado um mergulho se não houvesse um fiscal na embarcação justamente naquele dia.
Só fiquei admirando aquela procissão de barbatanas passar pelo barco. Até hoje me bate um arrependimento de não ter caído na água.
Apesar de estar no paraíso, eu sentia que não estava aproveitando tudo como deveria estar. Tudo estava meio cinza, eu estava ali mas minha cabeça parecia estar em outro lugar.
Ficava martelando na cabeça que era um erro estar ali, que depois de tanto sacrifício que eu fiz para entrar na área de desenvolvimento de softwares, eu não podia simplesmente abandonar tudo por um sonho antigo. E não dava para curtir o paraíso enquanto eu ainda estava vivendo um inferno astral interno e estava tão dividido entre a ilha e o continente.
Com todos esses conflitos internos e ajudado por mais alguns fatores, como o dono da empresa, que não era nem um pouco carismático, e as péssimas condições do alojamento, eu parto de Noronha com apenas 1 mês e poucos dias de estadia.
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