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Passagem por casa

Após deixar o albergue em Maceió, cheguei na casa dos meus pais. Eles estavam morando na casa da minha avó recém-falecida, e tinham deixado o prédio antigo no centro, onde cresci.

Cheguei com as minhas 3 gatas na mala. Nos primeiros dias, Boneca e Cinthia viviam escondidas enquanto não se sentiam familiar com o novo ambiente. Russa, como uma criança, não saía de perto de mim.

Cheguei lá por volta de agosto de 2019. A intenção era ficar até o verão, quando iria procurar uma nova operadora de mergulho para trabalhar. Minha rotina enquanto lá, era apenas estudar.

Com pouco tempo de chegado, minha mãe me traz uma garrafa de alumínio que usava para colocar bebidas alcoólicas e um copo pequeno que usava para bebê-las, que deixei por lá quando fui embora.

Fazia tempos que não bebia e não tinha a intenção de voltar. Fiquei me perguntando o intuito dela: era aquilo um incentivo? Com meu irmão e um tio, com sérios problemas com bebida, aquele gesto me pareceu no mínimo estranho.

Russa dormia todos os dias na minha cama, eu mal deitava e ela já se aconchegava. Certa vez ela fez um comentário sobre um amigo ou primo que tinha uma relação meio estranha com seus gatos. Não entendi muito bem o que ela quis dizer, mas aquilo me causou um certo desconforto.

Aquele comentário dela entrou na minha cabeça e não permiti mais Russa dormir comigo. Hoje me sinto mal por ter deixado ela me influenciar tão negativamente dessa forma. Com o passar do tempo, o desconforto só iria aumentar com muitas outras coisas acontecendo.

Estava na sala estudando, minha mãe diz que vai varrer o quarto onde eu estava. Quando ela está trazendo a sujeira do quarto com a vassoura, vi no chão junto à sujeira um pequeno pedaço de papel rosa, era um desenho que a filha pequena de uma amiga havia feito e me presenteado.

Guardava ele na minha carteira e estava me perguntando como ele caiu. Então minha mãe pega o desenho do chão e vem me perguntar o que era aquilo. Explico o que era e pego para por de volta na minha carteira.

Minha carteirinha de instrutor de mergulho havia sumido. Revirei minhas coisas de cabeça para baixo e não a encontrei. Aquilo foi me enchendo de ansiedade. Será que ela estava mexendo nas minhas coisas? Por que ela iria pegar minha carteirinha de instrutor, era o que eu me perguntava.

Até o momento eu apenas ficava com aquela sensação de desconforto, não querendo acreditar nas minhas suspeitas, de que alguma coisa de muito errado estava acontecendo. Mas ai com as coisas que viriam não tinha mais como duvidar de que meu psicologico estava intensionalmente sendo atacado de forma subliminar, com coisas pequenas, pequena demais para darmos muita importancia, até que elas vão se somando.

Um dia ela me traz muitas correspondências minhas que ela vinha guardando sem me informar do seu recebimento. Tinha coisas de mais de 6 meses. Ela me traz todas abertas. Dentre elas estava minha certificação de conclusão do curso de instrutor de mergulho, já tinha enviado mil e-mails para a certificadora perguntando por que eles ainda não tinham me enviado.

Questiono ela sobre por que ela não havia me falado dessas correspondências. Ela me diz qualquer coisa do tipo, eu esqueci, ou não achava que eram importantes.

Mas aquilo que me deixou mais mal foi o sumiço de Russa. Um dia meu pai diz que vai passar a tarde em um sítio, eu o vejo saindo com uma rede de deitar nos braços, dessas redes bem grossas e grandes, retornando no final da tarde.

Daquele dia em diante, eu não vi mais Russa, e associei sua saída com seu sumiço. Fiquei me perguntando se realmente era possível eles estarem querendo me fazer mal daquela forma tão maquiavélica, com qual intuito?

Meu pai, eu sei, não tinha muita afeição aos animais. Será que ele achou que era gato demais dentro de casa e só quis se livrar de um, ou será que o intuito era me afetar realmente?

Minha ansiedade e irritabilidade foram crescendo dia a dia. Aquelas paredes cada vez mais pareciam uma prisão. Eu me sentia um refém e eu precisava sair dali.

Pelo menos surgiu uma luz no fim do túnel. Eu tinha um dinheiro preso de um consórcio de carro que havia começado a pagar e abandonei, mas só poderia resgatar o dinheiro no final do consórcio, que por sincronicidade dos eventos, finalizou exatamente naqueles meses que eu estava lá. Conseguindo resgatar o dinheiro, eu tinha caixa agora para bancar minha viagem e alguns meses de despesas caso não arrumasse trabalho imediatamente.

Eu não tive muito contato com meus irmãos nessa estadia. Meu irmão mais novo me ofereceu um trabalho para ficar no atendimento remotamente auxiliando um time de poker que ele tava montando com mais 2 sócios. Como o serviço era remoto, achei que seria muito bom, que poderia conciliar com os estudos e levantaria uma grana para sair do vermelho, mas 1 mês depois ele me tirou do serviço, disse que eu não estava dando atenção suficiente.

Meu irmão mais velho me convidou um dia para tomar uma cerveja em um bar próximo de casa. Chegando lá, ele estava com a mulher dele. Como não podia gastar, tomei só alguns copos de cerveja, enquanto eles não paravam de pedir petiscos e refeições.

Aproveitei que mais algumas pessoas haviam chegado à mesa e anunciei que estava de partida. Dei a meu irmão um valor que achei justo pelo que consumi, e perguntei se estava ok.

Ele disse que não, que queria dividir por igual a conta. Então fui embora irritado para casa e não nos falamos mais.

Final do ano estava chegando e eu precisava encontrar meu destino para aquela temporada. Porto de Galinhas, uma praia turística a 60 km de Recife tinha uma enorme quantidade de operadoras, achei que era minha melhor opção para trabalhar aquele verão. Mandei currículos para todas as operadoras de mergulho de lá através de e-mail e fiquei no aguardo.

O ano virou, não obtive resposta de nenhuma, mas partir assim mesmo rumo a Porto de Galinhas.


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