Diario de um ApocalipseDi Ed Angelis
Eleições de 2018
Nunca tinha dado muita atenção à política, tenho que ser sincero: passei pelos dois governos de Fernando Henrique, que, olhando agora de longe, foram bem estáveis e com pontos positivos; tinha passado pelos 2 governos do Lula, que também foram bem tranquilos e prósperos.
E lembro que no governo da Dilma foi que tudo começou a ficar bem turbulento: de repente, o país estava desmoronando, crise atrás de crise. Lembro das passeatas gigantescas por todo o país, puxadas pelo recém grupo MBL; hoje eu me envergonho profundamente de ter participado de uma delas.
E, coincidentemente, enquanto o Brasil estava desmoronando, minha vida seguia o mesmo caminho: enquanto Dilma estava prestes a ser impeachmada lá, eu era impeachmado aqui. Para não ter um colapso nervoso ou adquirir qualquer doença crônica, tive que deixar meu Palácio do Planalto na minha cidade, o convívio dos meus familiares e amigos, abandonar os negócios que eu tinha iniciado e partir.
E nas eleições de 2018, quando soube que um político que até então era apenas uma figura caricata, estava liderando as pesquisas para as eleições, a principio não dei muita bola; parecia mais uma trend, uma piada que iria passar logo. Mas então comecei a notar que colegas da faculdade estavam realmente defendendo esse candidato seriamente, e as discussões sobre política começaram a ser diárias.
Via pessoas estudando em faculdades públicas — para piorar, em um instituto federal que foi obra direta do governo Lula — defendendo uma política que, no menor descuido, iria sucatear o ensino público para favorecer as faculdades particulares. Alguma coisa de muito errado estava acontecendo ali. De onde vinha tanta paixão e engajamento?
Lula estava detido, impedido de disputar as eleições. Sem ele para disputá-las, quem vencia nas pesquisas era Bolsonaro, um deputado federal com mais de 30 anos na política, que era conhecido por ser um ex-militar defensor da antiga ditadura militar.
Do lado da direita, as eleições de 2018 foram pautadas pela defesa do liberalismo econômico e o banimento da pauta LGBTQ das escolas. Segundo o candidato de direita, as escolas estavam tentando difundir a homossexualidade entre as crianças.
Na faculdade, entre os colegas, apareceram inúmeros especialistas em economia para defender o liberalismo econômico; nem parecia mais uma faculdade de tecnologia. Recebia links de sites, defendendo com teorias absurdas, essa tese, dizendo que se o país parasse de defender sua indústria e abrisse totalmente as portas para os produtos do exterior, o país iria ficar mais rico.
Ficava me perguntando, como é que tantas pessoas de tantos aspectos diferentes aderiram a esse candidato, pessoas de várias idades diferentes, pessoas de cor, gays e mulheres que defendiam alguém com falas racistas, machistas e homofóbicas.
Hoje as coisas estão mais claras, a base dele se encontrava em um desses dois aspectos: ou privilegiados economicamente, que querem manter e alargar sua riqueza em relação à massa, ou radicais racistas, que querem ter privilégios baseados nas suas características físicas. Esses são seus alicerces, mas todos que puderem ser manipulados, coagidos, amedrontados e seduzidos se juntam a sua base, mas como uma segunda classe.
Ver alguém que nunca tinha tido um cargo de gerência, público ou privado, e que demonstrava um despreparo completo, ganhar as eleições apenas por causa de suas falas radicais, e campanha mentirosa, era algo absurdo, e senti um dever de ser uma voz de equilíbrio nessa loucura.
Não queria fazer uma campanha combativa, mas uma campanha positiva para algum candidato. Então, agora tinha que escolher meu candidato: optei por fazer campanha para Ciro Gomes, um candidato que já havia sido prefeito, governador e ministro 2 vezes, e deixado bons legados por onde passou.
Para mim, era o candidato ideal, mas não tinha máquina nenhuma trabalhando para ele, e tinha um discurso que não alcançava o cidadão comum; para piorar, um discurso que atacava diretamente a elite financeira.
Me aproximei de um partido político em Maceió e me juntei a outros apoiadores para fazer panfletagem nas ruas, e comecei a defendê-lo nos debates na faculdade ou em qualquer outro lugar onde a política era o assunto.
Fui bastante ativo nas redes sociais, fazendo inúmeras postagens e repostagens por dia; lembro de uma montagem que fiz para Ciro Gomes, ter viralizado e atingiu mais de 1 milhão de visualizações.
Nos grupos de familiares e amigos no WhatsApp, descobri que boa parte deles estava apoiando o candidato de direita.
O mais fervoroso e ativo era meu pai, com várias postagens diárias em favor do seu candidato; não à toa, anos depois, ele ficou conhecido como Bolsonaro por seus amigos de baralho.
Meus irmãos também apoiavam o Bolsonaro, mas aparentemente de forma mais tímida. Minha mãe também não se comprometia, mas estava sempre de alguma forma defendendo o candidato de direita.
Me pegou de surpresa o volume de apoiadores que Bolsonaro havia adquirido ao meu redor, e era incrível como todos tinham quase sempre a mesma fala, do professor da faculdade ao feirante, passando pelo meu pai.
Todos tinham uma coordenação absurda de discurso e de defesa do seu candidato; pareciam estar sendo treinados.
Tudo que parecia uma imensa brincadeira, se tornou real. Bolsonaro ganhou as eleições. Ciro Gomes, que não tinha máquina nenhuma financeira e sem uma base organizada, e ainda com um discurso contra as elites, ficou em terceiro com 13% dos votos — se for pesar as condições, foi um grande número de votos.
Claro que fiquei consternado com o resultado, mas, agora com as eleições passadas, estava na hora de voltar a focar na minha vida pessoal. Coloquei na cabeça que era apenas 4 anos.
Mas o tempo iria mostrar que aquilo não tinha sido apenas mais uma eleição: um grande exército estava se formando, e ele iria continuar crescendo, se organizando e se radicalizando.
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