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Pequeno mundo do crime

Por anos eu via uma revista em quadrinhos jogada junto a outras tralhas lá em casa, que há muitos anos era jogada de um lado para outro e eu nunca dava muita importância a ela. Ela era do personagem Fantasma. Já havia folheado ela, mas ela nunca me chamou muita atenção por ser em preto e branco, e ter apenas personagens adultos com traços que não despertam muito o interesse numa criança.

Quando tinha por volta dos 12 anos, em um momento de tédio, resolvi pegar ela para folhear novamente, e parece que ela estava ali só esperando eu estar pronto. Foi um mundo novo que se abriu para mim. Li ela rapidamente e logo já queria mais.

Fui na banca de revistas atrás de mais exemplares daquele mesmo tipo, mas descobri que tinha outras, e essas sim, muito mais coloridas e cheias de ação, e cheias de curvas femininas, essas sim tinham um apelo muito maior para um pré-adolescente. Então abandonei o Fantasma para experimentar algo novo. Li Homem-Aranha, X-Men, Batman, Super-Homem e várias outras.

Então descobri que, para mim, aquilo iria ser uma atividade impossível. Eram muitas revistas que saíam mensalmente, e teria dinheiro para 1 ou 2 por mês, apenas. Não poder viajar por aqueles mundos fantásticos, coloridos, cheios de aventuras, heróis e heroínas, me deixou bem frustrado.

Eu sabia que precisava praticar a leitura; de alguma forma, eu sabia que isso iria ser bom para mim. Eu já havia tentado ler livros, mas era tão cansativo e tedioso. Eu tinha a noção de que, já que eu não conseguia ler livros, eu precisava descer um degrau e começar por leituras mais fáceis para uma criança.

Um dia estava na banca folheando uma das revistinhas que eu não iria conseguir comprar. Então percebi um certo discutir do banqueiro, e percebi que conseguiria sair com a revistinha sem ser notado. Então com aquele sentimento de necessidade mais um sentimento infantil de injustiça social, de que estava sendo me negado o direito da leitura, pela primeira vez levei uma revistinha sem pagar para casa, primeira de muitas vezes.

Então aquilo com pouco tempo havia se transformado em um hábito. Fui aperfeiçoando novas técnicas, fui mapeando todas as bancas da cidade; conhecia em torno de 8 bancas, no centro ou próximas. Então fazia o rodízio para nunca pegar mais de uma revistinha por mês de uma mesma banca.

As revistinhas do presente já não eram suficientes, então parti para drogas mais pesadas. Comecei a frequentar sebos de revistas, e lá encontrei pilhas de revistas jogadas, sendo comidas por traças, implorando para que um novo dono as adotasse e levasse elas para casa para cuidar delas como elas mereciam. E assim eu fazia, e confesso que não me sentia mal por aquilo. Eu nunca furtei nada que não fossem as revistinhas. Na minha cabecinha, se existia um crime justificável, aquele era um deles.

E confesso que, se pudesse voltar no tempo para dar um conselho para aquela criança de 12 anos, eu falaria para ele fazer tudo novamente, que as revistinhas fizeram bem seu papel.

Depois de um tempo, minha coleção já passava das centenas. Um dia conheci 2 colegas na escola que também colecionavam revistinhas. Ficamos próximos e de repente estávamos agindo em bando, e cada um tinha sua função: enquanto um distraía o banqueiro, o outro saía com a revistinha.

Eles eram aquele tipo que a ganância sobe à cabeça e não sabem a hora de parar. Um dia estava com eles em um sebo quando vi eles colocando dezenas de revistinhas de uma vez dentro da mochila de um deles sem nenhuma cerimônia, e o dono da banca obviamente pegou eles.

Um dia levei eles para verem minha enorme coleção. Sofri do meu próprio veneno. Ao saírem, notei várias revistinhas faltando na minha coleção. A raiva foi enorme. A traição de alguém próximo é uma das piores coisas que podem existir. É como ter sua casa invadida: você se sente inseguro em um lugar que deveria te trazer segurança. É um sabor bem amargo. No outro dia, questionei eles sobre o sumiço de minhas revistas e nunca mais nos falamos.

Não sei se por conta da traição, mas já não praticava tanto os meus atos como antes; acho que fui perdendo o interesse. E foi exatamente nesse momento de declínio que, um dia, estava na banca mais famosa da cidade, e na hora de sair da banca, o dono pede para que eu abra meu caderno. Fui pego pela primeira vez — eu tinha acabado de sair do colégio e estava com a minha farda. Ele fala para que eu fique ali, que ele ia contactar o colégio que eu estudava. Eu fiquei lá aguardando, com mil coisas passando pela minha cabeça, então eu comecei a chorar. O dono da banca deve ter se compadecido e deixou eu ir embora sem chamar o colégio.

Ali eu descobri que um crime pode ser divertido e tratado como apenas uma brincadeira, até você ser pego. A traição junto com o fato de ser pego me deu um pouco de desgosto das revistinhas, e fui perdendo o interesse. Foi mais ou menos na mesma época que conheci o PlayStation, e assim fiz minha pior vigarice: fui vendendo minha coleção aos sebos de volta até conseguir dinheiro para comprar o videogame.

Pouco tempo depois de ter abandonado as revistas em quadrinhos, fui em um sebo, e olhando os livros vi um que me chamou a atenção. Ele tinha algumas imagens orientais. Descubro que é uma história que se passa no Japão. Tinha bastante fascínio sobre a cultura japonesa na época — acho que nascido das próprias revistas em quadrinhos. Tay-Pan era o nome do livro, tinha a grossura de uma bíblia. Paguei pelo livro e levei para casa. O sentimento foi o mesmo de quando havia lido aquela revistinha do Fantasma pela primeira vez. Li tudo de um fôlego só, e logo voltei ao sebo para procurar mais livros do mesmo autor. Encontrei mais dois livros tão grossos quanto, e li eles também rapidamente. E no final pensei: as revistas em quadrinhos fizeram seu papel, agora um novo mundo havia se aberto.

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