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Não aceite doce de estranhos

Antes de sair da empresa onde estava, eu estava numa busca por um lugar mais econômico para ficar. Pensei em tentar dividir um apartamento com alguém.

Eu estava frequentando um centro budista, que conheci ainda na primeira semana em São Paulo. Foi um lugar que, assim que cheguei, foi como respirar ar puro pela primeira vez em muito tempo. Parecia que eu tinha encontrado meu lugar. Um ambiente onde todos tinham um objetivo em comum, buscavam a Iluminação.

Quando já estava frequentando há 1 mês o ambiente, eu resolvi falar a um e a outro que eu estava em busca de dividir apartamento com alguém. Alguém comenta que uma moça talvez quisesse; essa mulher diz ter interesse de mudar para uma região mais bem localizada.

Depois de uma semana, eu e essa mulher começamos a amadurecer a ideia. Era uma mulher um pouco mais velha do que eu, na faixa dos seus 45 anos, já tinha estado em algumas práticas com ela no centro, e me pareceu uma ótima candidata a colega de apartamento.

Em uma das conversas preliminares, ela me fala que é desenvolvedora de software também, e parecia que as estrelas estavam se alinhando e tudo estava contribuindo para essa junção. Começamos a pesquisar por apartamentos e marcar umas visitas.

Ela tinha um apartamento que teria que colocar para alugar, e o vencimento do meu aluguel estava para se vencer, então estávamos numa correria à procura do apartamento.

O dia de renovar o aluguel do meu apartamento chegou, e não tínhamos encontrado o nosso apartamento nem ela alugado o dela, então ela me chamou para ficar com ela no seu, enquanto não encontrássemos um apartamento que ficasse bom para os dois. Então fui para o apartamento dela, e isso me deixava bem mais distante do meu trabalho.

Já nos primeiros dias de convivência, o que seria para ser apenas uma parceria de apartamento acaba virando algo mais, e parecia ser algo bem natural com tantas coisas em comum que tínhamos, a área profissional, o budismo. Mas é como dizem: as aparências enganam.

Minha nova colega de apartamento parecia ter o perfil bem progressista, ou eu quem quis muito ver isso. Além de frequentar o centro budista, que parecia ser o último canto que alguém de direita iria frequentar, ela também passava a imagem de ser alguém bem voltada para natureza e ecologia, o que somou mais um ponto em comum.

Então, à primeira vista, não tinha como dar errado.

Para fazer o check final, tentei conversar um pouco sobre política para entender seu posicionamento: ela disse que tinha um irmão bolsonarista e que discutia muito com ele a respeito, até que chegou uma hora que cansou e simplesmente não conversava mais com ele sobre política.

Também deixei claro meu posicionamento, contei um pouco da minha história, falei que todos na minha família tinham se juntado à direita, e até compartilhei algumas perspectivas para o futuro.

Com esse depoimento dela, eu dei o check final, e agora sim parecia que tinha encontrado a parceira perfeita.

A primeira contradição que eu enxerguei foi quando eu percebi que ela não separava o lixo entre reciclável e orgânico. Para alguém com uma imagem ecológica, acho que isso é um pecado mortal, e não tinha desculpa, pois o prédio onde ela morava fazia a coleta seletiva.

Também notei que mal conversávamos sobre desenvolvimento de software ou trabalho no geral, então percebi que o conhecimento dela era bem raso.

Percebi então que ela estava na tecnologia como aqueles meus colegas de trabalho. Tinha caído meio que de paraquedas.

E, além de tudo, ela era muito antitecnologia: uma ecologista que não ajuda na coleta seletiva, alguém que trabalha com tecnologia mas não gosta de tecnologia.

E as contradições só estavam começando.

Estávamos conversando sobre um filme que assistimos, que contava a história de um grande vazamento de material radioativo que houve no Brasil. Então ela, num impulso, diz:

- Eles deveriam ter jogado no Rio.

Fiquei alguns segundos meio perplexo, tentando entender o que ela quis dizer: ela realmente falou que eles deveriam jogar o material radioativo na cidade do Rio de Janeiro? Aquilo não era uma frase que sairia da boca da pessoa que eu tinha idealizado, de alguém que conheci no budismo, e de alguém que diz ser de esquerda.

Eu também fico esperando para ver se ela complementa o comentário dela, mas ela não diz mais nada. Como quem começou a dizer algo que não deveria ter começado a dizer, ela fica olhando para o prato de comida.

Enfim, eu retornei para ela, pois eu precisava de uma explicação, então disse: Rio? E ela, meio desconcertada, disse: sim, sim, as pessoas não jogam as coisas no rio? Tenho certeza que ela não quis dizer esse rio, mas sim a cidade do Rio de Janeiro.

Há algum tempo percebo escapar nas redes sociais campanhas de hostilidade e difusão do ódio contra favelas, e mesmo entre os meus ex-colegas de trabalho vi comentários bem negativos contra cariocas, então fiquei pensando se o comentário dela não era reflexo desse tipo de preconceito e difusão do ódio.

Eu penso que todos estamos sujeitos a falar coisas impensadas. Levo como apenas um comentário infeliz, mas minha antena fica mais alerta agora e o encanto passa um pouco.

Um dia, estamos assistindo a uma entrevista no YouTube de uma moça loirinha a um famoso filósofo. Ela me pergunta se eu reparei na pequena moldura no formato de uma capivara na estante que ambientava o local.

Falo que não tinha reparado ainda. Ela diz que a capivara é um símbolo de quem é de esquerda.

Eu não sabia dessa informação, e quando é mais tarde eu noto, pela primeira vez, no móvel abaixo da TV, um pequeno bonequinho, pouco maior que um dedão, de uma capivara na posição de lótus do Buda.

O conhecimento sobre o simbolismo da capivara, somado a ter sua própria capivara, e mais uns adesivos que encontrei na mesa da cozinha em favor da legalização da maconha, indicam uma pessoa ativa e com perfil de esquerda, ainda mais depois do que ela falou do irmão dela.

Mas aí começa mais uma contradição: não lembro, em nenhum momento conversando sobre política, dela ter se expressado ou feito qualquer comentário em favor de um ou contra outro.

Sempre que assistíamos jornal e algo político aparecia, ela calada estava e calada ficava.

Eu já havia deixado bem claro meu posicionamento nas conversas que já havíamos tido.

Então comecei a tentar puxar mais o assunto de política, comecei logo perguntando se ela já tinha candidato para as próximas eleições, que iriam acontecer em 3 meses.

Ela só fala que só sabia em quem não ia votar.

Eu imagino que qualquer pessoa que seja realmente de esquerda não tinha nenhuma dúvida até ali de quem iria votar, e principalmente alguém num grau de ter símbolos da esquerda no seu móvel em casa.

Não satisfeito, outro dia tento arrancar mais alguma coisa dela, e pergunto se ela sabia como estavam as previsões, quem estava ganhando nas pesquisas.

Ela diz que não sabia. Pergunto o que ela espera dessas eleições, ela fala que não quer que nenhum "direitista" ganhe. Eu continuo achando a forma como ela se expressa muito branda.

Lembro dela me falar de ter comprado algo nas lojas Havan, lembro dela citar uma lei onde o responsável era um conhecido político de direita, eu achava que fazer propaganda positiva dessa loja e desse político eram um crime capital da esquerda.

A ideia de estar na presença de uma loba em pele de ovelha vai crescendo: por mais que os indícios materiais tentem dizer que ela é de esquerda, toda sua aura me parece de alguém de direita.

Eu continuo tateando para tentar confirmar minhas hipóteses, e agora parece que ela nem se esforça mais tanto.

Estamos assistindo um vídeo sobre a China e suas modernidades, mostrando como a robótica e a IA já fazem parte da vida dos chineses tão fortemente. Falo para ela que os chineses não estão preocupados com a perda dos empregos ou se irão passar fome, e deixo uma pergunta no ar: será que realmente o capitalismo é o melhor sistema a partir de agora? Eu fico de olho em sua reação e ela paralisa sem saber o que responder, ela apenas encolhe os ombros, e me sinto um boxeador que põe o oponente contra as cordas. Continuo esperando sua opinião, mas calada ela ficou. E, mais para frente no vídeo, ela comenta que lá eles não têm liberdade, mas na hora de falar contra o capitalismo ela ficou quietinha, pensei eu. Já estava me abatendo uma tristeza, por achar que estava com alguém, mas estava com outra.

Em outro momento, enquanto assistíamos jornal, ela sai exatamente no mesmo instante que o jornal ia mostrar as pesquisas eleitorais, que iria mostrar o candidato de esquerda na frente das pesquisas.

Espero ela voltar e comento: você viu que o Lula está na frente das pesquisas? Será que podemos confiar nessas pesquisas mesmo?

Ela fala que as pesquisas não importam, que ia ser bem apertado e as pessoas iam decidir mesmo era na última semana, principalmente se alguma coisa acontecer de grave naquela última semana.

Ela não falou nenhum absurdo, mas eu senti a energia dela baixar ao saber das pesquisas.

E, até ali, eu já tinha feito minha cabeça de que eu estava morando com alguém fingindo ser alguém que não era, e iria aprofundar muito mais o perfil dessa pessoa nos muitos dias que ainda íamos conviver.

Ainda estava tentando me enganar e fingir que eu estava errado.

Uma tarde de passeio no parque ajudou a matar minhas esperanças.

Estávamos sentados na grama em meio a muitas árvores e começamos a filosofar sobre a vida.

Eu falo que a vida foi plantada por Deus como quem planta uma árvore: ele sabe exatamente os frutos que darão no final, mas não tem muito controle sobre como ela vai se desenvolver, quantos galhos criará, que caminhos eles irão percorrer.

Mas que ele cuida dela, removendo os galhos secos, podando, adubando e regando para que ela produza o máximo de frutos possíveis.

Ela aponta uma árvore e diz: mas muitas árvores nascem tortas e têm muitos frutos ruins e podres.

Falo que não existem árvores tortas, e que só quem sabe se os frutos estão bons ou ruins é o agricultor que plantou a planta.

Senti uma grande descrença com relação à humanidade e radicalismo ideológico que não vejo nas nossas conversas sobre política.

Não a culpo de estar meio descrente com a humanidade, mas aquele discurso demonstra que ainda tinha muito mais radicalismo por debaixo dos panos que ela não demonstrava, e que só sai em impulsos ou descuidos, como no comentário da bomba atômica no Rio.

Ainda no mesmo dia, agora conversando sobre yoga, falo de uma posição que não consigo fazer pois sinto bastante dor na base da coluna.

Ela fala que algumas pessoas nascem defeituosas assim mesmo, com uma vértebra a mais, e esse era o motivo da minha dor.

O termo defeituoso grudou na minha mente, mas pelo menos ela não usou apenas para mim.

Quando perguntei o motivo de ela estar mancando, ela fala que sente uma dor na articulação da perna.

Perguntei se ela sabia o que causava, e ela fala que é defeito de fábrica mesmo, mas logo ela se corrige: deve ser desgaste com a idade.

Mas esses dois comentários me pareceram um tanto eugenísticos, também não muito condizente com um perfil de esquerda.

Ainda nesse passeio no parque, ela sugere irmos beber água em um bebedouro público. Eu a vejo lutando para colocar a água dentro de sua garrafa; a dificuldade era porque ela tentava colocar pelo buraco minúsculo por onde bebíamos. Eu peço a garrafa a ela e faço o óbvio: eu desenrosco e removo a tampa da garrafa. Mas mesmo com a garrafa enchendo facilmente, ela pergunta se não seria melhor encher pela torneira da água dos cachorros, uma torneira logo abaixo usada para fornecer água para os pets. Achei meio absurdo ela querer que eu usasse a torneira dos cachorros, e não entendi porque ela sugeriu aquilo já que a garrafa agora estava já sendo enchida facilmente. Pela forma e tom com que aquilo foi falado, senti que foi tudo uma encenação para que ela pudesse pôr para fora aquilo que ela queria falar, e dizer que beber daquele bebedouro era como beber do mesmo bebedouro que dos animais, ou pior, um recado direto para mim, me pondo no mesmo patamar que um cachorro. Pôde ter sido um comentário ingenuo, mas para mim era mais um indicio de que tinha muito mais ideologia radicais escondida por debaixo dos panos.

Lembro dela falar sobre Ivan Pavlov um tempo atrás, com relação ao estudo do condicionamento animal. O que me chamou a atenção foi a propriedade com que ela falava, parecendo alguém com bastante interesse no assunto, apesar dela não ter nenhum animal de estimação. Será que era eu o cachorro, pensei eu.

Ela é uma pessoa que tem uma dieta espartana, principalmente com relação ao açúcar. Quando cheguei, tudo na casa era integral e as porções que ela comia eram bem pequenas. Um dia, ela chega em casa com um saco de biscoitos do tipo rosquinhas, daqueles bem açucarados, e isso imediatamente me remete à casa dos meus pais, onde aquelas rosquinhas estavam sempre disponíveis e nunca faltavam. Estranhei alguém com aquela disciplina na dieta comprando aquilo. Falei para ela que aquele tipo de biscoito me causava azia e não comia deles. Já havia notado que ela, sempre que chegava em casa, estava trazendo um docinho. Eu comecei a diminuir o consumo de doces. As rosquinhas, assim como os doces, não iam diminuindo de volume com os dias. Os doces não paravam de chegar e agora se acumulavam.

Um dia, proponho de irmos visitar um templo budista nos arredores de São Paulo. Ela convida uma amiga e vamos nós 3.

Chegamos no templo e sentamos em uma mesa para esperar a hora do ensinamento. Ela logo saca da bolsa um pacote de cookies, oferece aos dois e deixa lá em cima da mesa.

A amiga pega um ou dois. Quando chega a hora, ela recolhe os cookies e vamos para o ensinamento.

Já no carro indo embora, a amiga está dirigindo, ela de passageiro e eu no banco de trás. Mais uma vez, ela saca os cookies.

Eu recuso a oferta, a amiga pega mais um, ela oferece novamente e a amiga recusa, e ela segura o saco de cookies aberto mais uns 10 minutos na frente da amiga, mesmo ela dizendo que não iria pegar mais.

Ali sinto uma certa predisposição a fazer a amiga comer o máximo de cookies possíveis, e parece que estou vendo eu lá no lugar da amiga. Eu saio do meu corpo e estou vendo tudo de fora.

Para mim, já se foi o tempo em que oferecer um docinho era sinal de gentileza.

No centro budista que frequentávamos, todos os dias tínhamos leituras de livros e textos, lideradas pelos facilitadores, que não eram mais que frequentadores mais experientes.

Um desses facilitadores era um senhor, frequentador e praticante há anos, e adorava discutir sobre tudo.

Nas práticas, ele estava sempre tossindo muito e tinha uma certa debilidade.

Quando eu estava morando mais perto do local, sempre ia para as suas práticas, mas agora já fazia um tempo que não ia.

A moça com quem eu estava dividindo apartamento sempre ia para as práticas dele, depois de sair do trabalho.

E percebi que eram as únicas práticas que ela frequentava e não faltava um dia.

Era uma prática que começava já tarde e terminava tarde da noite, e nesses dias ela chegava bem tarde no apartamento.

Uma vez perguntei como estava o senhor, e ela disse que ele estava bem mal.

Perguntei a ela se ela sabia o que ele tinha, ela disse que era apenas a idade.

Aquela tosse não pôde ser coisa apenas de idade, eu falei.

E ela completou: vamos aproveitar enquanto ele está aqui, porque acho que ele não aguenta muito tempo mais.

Mais algumas semanas e ela me fala que o senhor não vai mais para o centro.

Haveria um grande feriado durante a semana, e ela iria aproveitar para visitar sua cidade para comemorar o aniversário do seu sobrinho junto com o irmão bolsonarista. Havia uns doces na cozinha que ela havia trazido e estava lá há dias, intocados: duas pequenas trufas de chocolate. Depois do almoço, ela pega 2 delas e vem me oferecer uma. Eu acabo comendo, mas logo depois o arrependimento me cai. Eu lembro daquilo que sempre é dito para as crianças: nunca aceite doces de estranhos. O feriado era na quinta; ela passa o feriado em casa e viaja na sexta logo cedo. Ainda na sexta, vou ao banheiro e, antes de dar descarga, percebo a água com um tom meio rosado. Olho de mais perto e percebo que minhas fezes estão cheias de um líquido vermelho que parece ser sangue. Eu não estava com dores estomacais e fico me perguntando o que pôde ter causado isso. Penso em duas hipóteses: ou o doce, ou uma bebida alcoólica que estava em sua geladeira há anos. Segundo ela, havia bebido um pouco no jantar, no dia anterior, mas não tinha bebido nem 100 ml dessa bebida. Mas, para garantir, também paro de tomar a água que ficava em um galão de 20 litros. Na próxima ida ao banheiro, ainda percebo algumas manchas vermelhas, mas agora bem mais fracas, e nas seguintes as fezes voltam à sua coloração normal. Alguns dias depois, peço uns exames de sangue e de fezes e tudo estava normal.

Em um sábado, ela acorda mais cedo como era de costume, e vai para um compromisso. Eu acordo um pouco mais tarde e vou para o centro budista. Ela ficou de se encontrar comigo lá; já estava lá quando ela chega acompanhada de um senhor, alguem que só tinha visto uma vez lá no centro. Eles chegam e se juntam a mim e a mais duas praticantes que também já estavam lá: a coordenadora do centro, que havia me prometido tutoria, por isso tinha ido conversar com ela, e outra moça também bem frequente no centro. O senhor fala que vai na padaria comprar pão de queijo para todos. Enquanto ele sai, conversamos um pouco sobre o senhor que está doente. Pergunto se alguém sabe do estado dele, ninguém sabe responder. Falo em voz alta: que povo desunido. Eu penso comigo mesmo que eu esperava um pouco mais de intimidade para alguém tão conhecido no centro. Eu comento que ele era muito inflamável, que se irritava facilmente, que aquilo fazia mal para ele. E noto que a moça que mora comigo dá um sorriso como que lembrando de algo, ou como se eu tivesse falado algo engraçado. Após o senhor retornar da padaria, ele oferece o pão de queijo a todos e recuso cordialmente. Ele insiste, eu insisto em recusar. Durante a conversa que se segue, ele faz uma piada misógina, onde colocava os homens acima, em importância, em relação às mulheres. Vi que somente a minha colega de apartamento ri da piada. Mais tarde, após a finalização da prática de meditação, antes deles se levantarem, vejo ele trocando mensagens com ela através do mesmo celular, como quem digita no bloco de notas, como alguém que quer falar algo em sigilo, para não deixar a mensagem gravada em nenhum aplicativo e evitando falar em voz alta. Mais tarde, ela fala que ele é um praticante bem antigo, apesar dele mal aparecer no centro, diz que ele foi um dos responsáveis por trazer o mestre tibetano que formou o Lama fundador daquele centro.

Estávamos em um museu, em uma ala que mostrava os períodos de extinção, que foram 5. Estava calculando quando seria a próxima grande extinção, calculando o intervalo entre todas as outras. Ela ri dos meus cálculos enquanto lê alguma coisa, então diz: mas olha, aqui tá dizendo que só foi possível o homem prosperar porque os dinossauros foram extintos, então uns têm que morrer para que outros prosperem. Penso comigo: mas por que ela se prendeu a essa passagem? Por que colocar isso daquela forma?

Fomos assistir ao tão falado filme A Odisseia. Eu achei o filme grandioso e me deixou muito reflexivo. Fomos assistir em um cinema próximo à casa dela, e voltamos a pé todo o caminho discutindo vários aspectos do filme. Falei sobre o plano de fundo do filme, a guerra de Troia, falei como era incrível, como os desejos e ambições de uma única pessoa acabam e transformam a vida de tanta gente. E o rei que provocou toda a guerra sequer vive o suficiente para colher os frutos de suas vitórias, que, depois de tantas batalhas, havia sucumbido pelo pecado de ter sacrificado sua própria filha, achando que o sacrifício de sua filha iria lhe favorecer diante dos deuses. E comentei que, hoje em dia, cada vez mais, via pais sacrificando filhos, filhos sacrificando pais, e que uma hora essa conta iria chegar para todos. Falei que o grande rei está junto aos soldados em Hades: todos no final encontram o mesmo destino, pobre ou rico, branco ou preto, lobo ou ovelha. Ela comentou sobre ter achado engraçado a cena que a bruxa transforma os homens em porcos, dizendo que ela estava retornando eles para o estado original deles. Eu advoguei a favor dos homens dizendo que ela parecia estar muito amargurada, mas que de certa forma ela tinha razão para isso, vendo as barbáries que eles fizeram nas guerras. Ela fala que todos temos a semente do bem e do mal dentro de nós, eu concordo, e digo: mas que cabe a nós saber qual semente iremos regar para que ela floresça.

Porque, se só tivéssemos a semente do bem ou a semente do mal, não teríamos responsabilidade nenhuma sobre nossos atos, e o livre arbítrio não existiria se já nascemos prontos e formados.

Falei sobre a mudança de perspectiva da imagem de Ulisses: primeiro, no começo do filme, visto como o grande herói que trouxe a vitória; depois, sobre sua própria perspectiva, a amargura de ter cometido um dos maiores pecados, entrando na casa das famílias na surdina, enquanto todos dormiam, assassinando famílias inteiras.

No mesmo instante, ele sabia que havia cometido um grande pecado diante de Zeus.

Eu disse que vejo, hoje em dia, assim como Ulisses fez, pessoas sendo atacadas e perseguidas sem nenhuma chance de se defenderem, pois não sabem quem são os agressores, podendo ser pessoas da própria família, ou amigas que fingem amizade e envenenam os outros.

Chegando em casa, senti uma certa mudança no seu comportamento, uma frieza e falta de intimidade.

Ela me avisa que está indo dormir, e não pergunta se estou indo também, como era de costume; na hora de me beijar, me dá a bochecha.

E, mais tarde na cama, nunca tinha visto um espaço tão grande entre nós.

Percebo que ela levanta de madrugada e não retorna. Saio para ver o que tinha acontecido e a pego sentada no sofá, lendo algo no celular.

Nos dias seguintes, meus atos de carinho também já não se sustentavam, talvez pela mudança de comportamento dela.

Algo não estava normal, mas ela não me chamou para conversar a respeito. Ela só mudou seu comportamento e continuamos fingindo que estava tudo bem, mesmo sabendo que não estava nada normal.

Um dia depois ela me informa que descobriram que o senhor estava com câncer no fígado.

As gentilezas com relação à alimentação continuaram, sempre oferecendo algum docinho, ou uma fruta crua partida.

Uma vez, ela recebeu a visita de uma amiga; a amiga trouxe algumas frutas. Conversei um pouco com a amiga e resolvi partir logo para o campo político; ela logo se posicionou contra os candidatos extremistas. Quando já tínhamos adquirido uma certa intimidade, ela me oferece metade de uma pêra, eu aceito, e quando eu pego, ela diz: já está lavada. Aquilo grudou na mente. Se a pêra já estava partida, eu realmente iria supor que ela já estivesse lavada. Eu pego a metade da pêra e levo à pia e lavo ela novamente com bastante vigor. Conversamos mais um pouco e a amiga vai embora.

Estávamos conversando na cozinha enquanto eu cozinhava, ela veio me perguntar se eu já senti frio na barriga. Perguntei se do tipo que sentimos em montanha russa, ela diz que sim. Ela fala que uma vez ela deletou todo o banco de dados da empresa onde ela trabalhava, sem querer, eu imagino, e ela diz que sentiu um grande frio na barriga. Então eu disse: um frio na barriga de quando se faz algo errado, então?

Sim, ela diz.

Eu continuo: quando a tensão é muito grande, acho que causa um frio na barriga. Andar de patins, por exemplo: na hora de descer uma grande rampa, dá uma grande tensão, e depois vem a dopamina após conseguir, e isso é meio viciante. Deve ser por isso que esportes radicais são tão viciantes.

Ela concorda. Fico me perguntando por que ela veio com aquele assunto, será que ela está se viciando em fazer coisas erradas, e se está começando a ficar dependente nisso aí.

Eu finalmente decido que está na hora de partir. Eu aviso a ela que estou procurando passagens para voltar para minha cidade.

Ela demonstra uma certa frustração, diz que eu deveria insistir e deveria continuar a procurar trabalho ali em São Paulo.

Eu falo que está na hora de dar um pulinho na minha cidade e visitar minha mãe, que não estava muito bem de saúde.

Na verdade, eu já estava com passagens compradas há mais de 1 mês, e resolvi avisar apenas quando restavam 2 semanas para minha viagem.

Após eu avisar de minha partida, ela fica ainda mais afastada, e começa a sair cada vez mais sozinha.

Uma vez, tento alguma intimidade e ela fala que é melhor pararmos; temos uma conversa longa e oficializamos o fim da relação íntima.

No final da conversa, ela me fala: espero que um dia você encontre um lugar onde você se sinta seguro, simplesmente do nada, sem contexto algum.

Me pergunto por que ela disse isso, e chego a duas conclusões: ou foi um aviso, querendo dizer que eu nunca iria encontrar um lugar onde eu estivesse seguro, ou era a revelação de sua missão.

Lembro de uma vez, conversando com minha prima, que havia viajado para Gramado no Sul, mando mensagem para ela perguntando o que tinha em Gramado que de repente todo mundo ao meu redor estava indo pra lá.

Ela diz que é tranquilo e seguro. Eu falo que não considero apenas a segurança de um lugar na hora de viajar para algum canto.

Ela me pergunta o que eu considero, eu falo que gosto de lugares com uma natureza exuberante.

Ela pergunta: e como faz com os ladrões e bandidos? Eu corro, respondo com um sorriso.

E penso: essa daí já foi, já está em processo de radicalização.

Eu começo a ficar cada vez mais desconfortável lá, e decido aguardar por minha viagem em outro lugar.

Falo com minha tia que mora em Osasco, ela avisa prontamente que ficaria feliz em me receber.

Então eu aviso à minha futura ex-colega de apartamento/companheira que não tinha mais sentido ficar lá, e aviso que estou indo para minha tia.

Temos mais uma conversa e depois começo a arrumar minhas coisas. Não tinha avisado que iria ainda naquele dia.

Ela, vendo eu arrumar minhas coisas, pergunta: mas você já vai hoje?

Eu aviso que era essa a minha intenção.

Ela me pergunta por que a pressa, faz as coisas com calma, diz ela.

Eu aviso que estou fazendo as coisas com calma.

Enquanto arrumo minhas coisas, ela ainda protesta mais algumas vezes o fato de eu já estar indo naquele dia.

Me pergunto por que ela gostaria que eu ficasse aquele dia, já que tínhamos acordado encerrar todas nossas relações. Continuo arrumando a mala.

No final da tarde, eu parto, com uma leve sensação de que tinha ficado tempo demais, e uma sensação de passarinho saindo da gaiola.

Só depois de partir eu noto uma coisa: ela havia levado um completo estranho para ir morar na casa dela.

Decerto ela deve ter feito sua pesquisa na internet antes, mas eu não lembro dela perguntar muito a meu respeito durante o período que estive lá.

E eu também falo para mim mesmo que eu fui morar sob o teto de uma completa estranha apenas me baseando em pré-concepções que eu havia estabelecido sobre ela.

Será que casamento é mais ou menos isso?

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