Diario de um ApocalipsePor Ed Angelis
Senna
Comparada à de outras pessoas, minha pandemia foi ótima. Estava em um pequeno paraíso, e agora tinha ainda mais tempo para os estudos, que intercalava com algumas caminhadas na praia e mergulhos no mar. Eu realmente estava totalmente alheio, e na minha cabeça, bem protegido dos perigos da pandemia.
Estava uma vez caminhando, na praia praticamente deserta, por um trecho pedregoso, quando piso em falso e desabo no chão. Estou bem e dando graças a Deus pela praia estar deserta e não ter ninguém para testemunhar meu vergonhoso tombo.
Ainda no chão, olho ao redor para conferir se não tinha ninguém assistindo realmente. Eu vejo um rapaz correndo a toda velocidade a uns 100 metros de distância de onde eu estava, vindo na minha direção.
Ele chega a mim rapidamente e pergunta se estou bem. Digo que sim, agradeço a preocupação e sigo minha caminhada. Ele devia ter mais ou menos minha idade.
Fico refletindo sobre sua atitude e penso que eu também sou incapaz de ver alguém levar uma queda sem ir perguntar se a pessoa está bem. Faço uma varredura no passado. Não lembro de ninguém me ensinando esse comportamento. Lembro instantaneamente de outra recordação, só que ocorreu o oposto do que aconteceu agora.
Há muito tempo atrás estava andando de bicicleta na minha cidade, em volta do açude que é cartão postal de lá, onde as pessoas se reúnem para fazer suas caminhadas e corridas. Eu estava bem devagar na bicicleta, apenas com uma das mãos no guidão, quando o guidão vira de repente, dando um giro de 180 graus, e eu caio de peito no chão. Uma queda vergonhosa.
Eu estava bem, e ainda no chão, percebo um casal passar bem ao meu lado, como se eu nem existisse. Era um casal bem mais jovem que eu na época, na faixa de seus 20 anos de idade.
Ainda na praia continuei refletindo de onde vinha esse comportamento, meu e de muitos outros, e porque aquele casal de jovens não tivera nenhum gesto de gentileza e empatia com relação a mim. Tento lembrar de algum gesto desse tipo que eu tenha visto na minha juventude, que tenha me marcado ao ponto de eu replicar ele por toda minha vida, e me vem à cabeça uma cena.
Eu tinha 8 anos de idade. Estava passando na TV a Fórmula 1, a televisão estava mostrando Senna em sua volta, quando de repente ele passa por um carro acidentado.
Ele para seu carro alguns metros à frente, sai do carro e vai ajudar o piloto acidentado. De repente tudo fazia sentido.
Depois dessas reflexões, volto a rever tudo sobre Senna na internet: corridas, documentários, entrevistas. As cenas de luto nas ruas do Brasil são muito simbólicas, e mostram que ele foi muito mais que um piloto de Fórmula 1, foi um verdadeiro herói e ídolo.
O fato do meu reflexo em ajudar os outros ter origem nas minhas lembranças daquele dia é só especulação, mas eu acredito firmemente nessa hipótese. Quantas milhões de pessoas pelo mundo não podem ter sido contaminadas pela atitude de Senna naquele dia?
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