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Diario de um ApocalipseEd Angelis 지음

Reflexões Adolescentes

Já maior e com a leitura mais fácil, iniciei as leituras mais densas. Os filósofos e suas frases famosas sempre me despertaram atenção — "Tudo que sei é que nada sei", Aristóteles; "Somos aquilo que comemos", Hipócrates; "Penso logo existo", René Descartes — são exemplos de frases que fixaram na minha mente e despertaram minha curiosidade sobre a filosofia. Então fui atrás de saber mais, li sobre a caverna de Platão, imprimi materiais da internet com conceitos básicos de pensamento crítico e dialética. Minha mãe tinha uma estante com livros de psicologia. Catei um que pareceu mais interessante, e aprendi os conceitos básicos da psicologia sob a ótica de vários autores diferentes. Também lembro de um livro interessante que estava jogado na casa de praia da minha vó, "Contos de Voltaire", também com muitas reflexões filosóficas. A concorrência com os games era pesada, e atrapalhou um pouco nas leituras, mas o pouco que li foi mastigado até a exaustão.

Foi no começo da adolescência quando os primeiros questionamentos espirituais surgiram. Tive criação católica, fiz primeira comunhão, mas depois disso não cheguei a frequentar igreja mais, até muito tempo depois.

Pus em prática a dialética da filosofia para filosofar sobre a existência de Deus e a natureza da vida. Senti que precisava tomar uma decisão: parecia que estava numa estrada com uma bifurcação e precisava escolher que caminho seguir — Deus existe ou não existe? Por que devo ser uma pessoa boa se Deus não existir? Qual o sentido da vida, finalmente?

Com relação à existência de Deus, para mim isso foi uma questão rápida de ser resolvida. Com todo o conhecimento que tinha chegado a mim até o momento, cheguei à conclusão de que a organização biológica necessária, que culminava em um pensamento consciente, tornava impensável a não existência de uma consciência por trás disso. Não aceitamos que coisas bem mais rudimentares criadas pelo homem possam simplesmente surgir: um relógio não poderia surgir de acontecimentos aleatórios da natureza. Então não posso acreditar que algo bem mais sofisticado como o corpo humano e da vida em geral possa simplesmente ser criação do acaso.

Mas então vem logo a pergunta: mas então quem criou Deus, ou como Deus surgiu, mas antes disso tudo deveríamos nos perguntar, o que é Deus?

Cheguei à conclusão de que não podemos especular sobre o que não conhecemos e o que não está ao nosso alcance. Como não sei do que é feito Deus, como posso especular como ele surgiu? Só podemos ter uma ideia formada por coisas que estão ao nosso alcance, e a vida como a conhecemos, para mim, não poderia ter surgido de acontecimentos aleatórios.

Lendo sobre budismo e práticas meditativas, aprendi a meditar focando no nada, na não existência, no vazio completo, e isso explodiu minha mente. Pensar que o vazio é o estado natural do qual tudo surgiu faz pensar: que vazio é esse? Essa é uma pergunta bem mais enlouquecedora do que pensar sobre a existência de Deus.

Então continuei refletindo: se Deus é uma realidade e tem algum poder sobre esse mundo, como pode haver tanta injustiça — crianças doentes, crianças passando fome, guerras? Por que é permitido tudo isso? Por que tanto abandono? Essas eram minhas maiores questões.

Então concluí que, se eu acredito na possibilidade da existência de Deus, eu não posso desacreditar baseado nas imperfeições do mundo, num mundo em que Deus é o arquiteto, que existe eternamente ou por um tempo que é impossível contarmos. Eu só posso crer que sua sabedoria está muito além da nossa, e eu não posso questionar coisas que estão além da minha capacidade de entendimento.

Mas então qual seria o sentido da vida, como deveria viver minha vida, o que Deus espera de nós, era o que me perguntava. Tem uma frase na Bíblia que me ajudou a trazer luz à minha conclusão: "Deus nos criou à sua imagem e semelhança". Essa frase diz que somos basicamente uma cópia de Deus. Não acredito que ela se refira a uma cópia biológica, mas à consciência, e acho que faz todo sentido.

E se é assim, podemos encontrar pistas do que Deus espera de nós aqui mesmo. Como nosso pai — o que todo bom pai espera de seu filho?

Na infância, ele espera que o filho cresça saudável, que brinque e se divirta ao máximo; ele quer que os filhos se deem bem uns com os outros, que respeitem e obedeçam ao pai.

À medida que crescem, ele espera que o filho vá adquirindo mais responsabilidades, que olhe pelos irmãos mais novos, que estude e aprenda, mas que lembre de nunca deixar de se divertir, pois acima de tudo ele quer que sejamos felizes.

Por fim, ele quer que continuemos a amadurecer, para quem sabe um dia possamos ser muito mais que filhos, e possamos ser companheiros.

Mais uma dúvida ainda permanecia: como eu deveria viver minha vida, o que buscar, o que valorizar. Sendo eu pobre, e vendo as pessoas valorizarem tanto bens materiais, seria esse o sentido da vida — a busca por bens materiais e segurança financeira? Mas por que jogar um jogo em que eu já comecei com tanta desvantagem, era o que eu me perguntava.

Além do mais, os bens se acabam, ficam velhos e são jogados fora. Se acredito que o corpo é apenas um veículo para consciência, então aquilo que não se perde seria minha inteligência, aquilo que aprendo, aquilo que me fez decidir ser uma pessoa boa, aquilo que me faz enxergar e ver o que outros ainda não são capazes de ver.

Lembrei então das frases dos filósofos, que sobreviveram séculos até chegar a mim: será que as ideias não valem muito mais que os bens e as coisas?

Quando falo em ideias, me refiro à sabedoria adquirida, e não falo de conhecimento. Conhecimento é aquilo que apenas absorvemos; sabedoria é algo maior.

Com sabedoria nós produzimos boas escolhas de vida, e também influenciamos os outros a fazerem boas escolhas — e não seriam as nossas escolhas aquilo de mais importante da vida? Conhecimento nada mais é que o acúmulo de informação, mas nossas escolhas geram consequências, e escolher o caminho errado nos conduzirá sempre ao lugar errado, enquanto escolhas corretas nos levam ao lugar correto. Podem chamar lugar correto de Paraíso, ou Nirvana ou felicidade e paz plena; eu acredito que minhas escolhas sempre me levam ou mais para longe ou mais para próximo de Deus.

Refleti sobre como a sociedade cresce no coletivo. Eu cheguei à conclusão de que sou apenas uma célula de uma consciência coletiva muito maior. Se somos a média de todos aqueles que nos rodeiam, eu sou apenas um pequeno número nessa grande equação. Apenas um neurônio no meio de um imenso cérebro global. (Mas esse cérebro tá ficando decadente, tá ficando burro pois os neurônios estão perdendo a conexão entre eles, não dialogam mais entre si, e pra completar esse cérebro foi acometido de uma doença autoimune que faz ele atacar a si mesmo.)

Aí voltamos à natureza do bem e do mal: ser mal é buscar seu bem acima de tudo em detrimento do bem do próximo, empobrecendo e enfraquecendo a sociedade; ser bom é garantir o bem comum, assim enriquecendo a sociedade. Se a sociedade enriquece, eu fico rico também.

Essa consciência coletiva tem os estágios de amadurecimento semelhantes aos de um indivíduo: tem sua infância, adolescência, fase adulta, velhice. E eu arrisco dizer que estamos chegando na fase pré-adolescência, em que começamos a achar que sabemos tudo, e que não escutamos mais os pais...

Tentei entender um pouco mais sobre as religiões, para tentar me adequar em alguma. Lembro que na época as hipocrisias do passado e do presente da Igreja Católica me causavam um bloqueio, então fui em busca de alternativas.

O budismo logo me apareceu como a opção perfeita. Imprimi bastante material sobre o budismo, passei a meditar.

O budismo não me oferecia uma verdade e uma resposta para todas as perguntas do universo, mas dava pistas e indicava a direção para que eu trilhasse o caminho da verdade chegando às minhas próprias conclusões, e para mim aquilo soou bem mais correto do que em outras religiões.

Hoje em dia leio bastante a Bíblia, e consigo tirar bastante coisas positivas, mas tenho minhas dúvidas se ela foi 100% escrita por homens com inspiração divina. Talvez a Bíblia não funcione como um guia espiritual, mas ela é mais como um revelador e ampliador do caráter das pessoas, porque bons e maus lá encontrarão um reforço para sua natureza.

Minha busca espiritual seguiu, até que os hormônios começaram a bater na porta. Com meus 16 anos, tudo que tinha em mente era conseguir uma namorada, e minha busca espiritual foi entrando em estado de dormência.

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